Cap. 33 - Certezas

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Herbert recebia na porta do apartamento o entregador da comida chinesa que encomendara, despachando-o com umas moedas de gorjeta.

Assim que entra, o telefone toca e ele atende, deixando os pacotes sobre a cadeira da mesa do telefone.

Deixou o fone na mesa e saiu para o escritório particular de Mariellen, abrindo a porta de manso, evitando fazer ruídos.

–– Querida, o seu pai está no telefone... e o jantar já chegou.

Mariellen olha para o marido com aborrecimento, mas ele já havia se retirado do escritório.

Detestava ser interrompida quando estava em meio aos seus estudos.

Na sala, ela atende ao telefone. Não possuía um aparelho em seu escritório para exatamente não ficar sendo importunada por ligações.

–– Pai?

–– Mari! Filha! Preciso tanto falar com você...

A mulher estranhou o tom de imploração do pai, notando que a voz dele estava embargada.

–– Estou aqui, pai, pode falar.

–– Não, por telefone, não... quero falar com você pessoalmente. Sabe a biopsia que fiz no mês passado?

Mariellen sentiu seu peito gelar.

Apesar dos atritos que tivera no passado com o homem, Elias era o seu pai e ela nutria algum sentimento por ele.

–– Sim, pai ...e?

Elias engoliu em seco, falando com uma voz ainda mais embargada. 

–– Pois, minha filha... deu positivo.

–– Ah, pai! Eu sinto muito! Sei que vai precisar de apoio! Temos ótimos hospitais aqui no Rio, que são referência em oncologia e eu poderei...

O homem a interrompe um pouco impaciente.

–– Eu sei, Mariellen, sei disso... mas preciso que você venha até aqui... iria até você mas não posso viajar por causa da quimioterapia e...

–– Mas já está fazendo o tratamento?! Quando foi que teve o resultado?

–– Há duas semanas.

–– E por que não me avisaram?! Mamãe até me ligou esses dias, mas não me falou nada! Por que esconderam isso de mim?!

–– Eu não queria que ninguém soubesse!

“–– Mas eu sou sua filha!” – Pensou em protestar, mas preferiu se manter quieta.
–– Eu... eu pensei muito sobre a doença... sobre minha vida... pensei muito em você esses dias, minha filha! Por favor, não me negue isso!

Mariellen engoliu o espanto. Jamais em sua vida ouvira o pai falar nesse tom e dessa forma.

O homem falava com amargura e suplicava!

–– Não, pai, não te negarei... apenas me dê dois dias para que eu providencie um médico substituto pro meu plantão.

–– Você me promete? Promete que virá o mais rápido possível?

–– Sim, pai, prometo... – Mariellen respondeu com um suspiro e ainda permaneceu por instantes com o fone no ouvido, mesmo depois de o pai desligar, sentindo um nó em sua garganta quase a sufocá-la.

Herbert, curioso pelo telefonema e pela demora da mulher, aparece na sala com fingida reserva.

–– Mari... tudo bem?

Ela ainda levou um tempo antes de responder ao marido.

A última coisa que queria é desfazer-se em lágrimas no ombro dele.

Hybrida - Asas NegrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora