O sol ainda não havia nascido e algumas estrelas insistiam em brilhar, quase vencidas pelo clarão vermelho-alaranjado que rompia com o azul enegrecido do céu da manhã de segunda-feira.
Yashalom estava rigidamente sentada no pequeno sofá da sala.
Os olhos azuis estavam muito abertos, atentos às movimentações de Sarah, que arrumava com vigor a sua bolsa de viagem.
Enquanto ela tagarelava trivialidades e todas as recomendações básicas de sempre, a garota não conseguia acreditar que a mãe não se lembrava de nada do que acontecera ali naquela mesma sala, a dois dias atrás.
As janelas continuavam sem a vidraça, a tela de TV estava estilhaçada e todas as peças de cerâmica e vidro que enfeitavam a estante não mais existiam.
–– Você vai resolver isso hoje mesmo, Branca. Ligarei pro Virgílio pra dispensar você por hoje, pra que fique aqui com o Seu Mathias pra que ele conserte as janelas. A televisão não terá jeito, vai ter que ir pro lixo. Verei como estão as nossas finanças e, se der, compro logo uma nova e mando entregar. Se não, vai ter que aguentar até o final do ano, quando sair o meu décimo terceiro. Acha que vai sentir muita falta da TV, filha?
Sarah ficou na expectativa da resposta.
Yashalom ainda demorou em murmurar a sua negativa.
A televisão nunca importou muito para ela e agora menos ainda.
Ela estava é pasma com o comportamento totalmente alienado da mãe!
–– Não, mãe... não fará nenhuma falta. Pode economizar o dinheiro para algo importante de verdade.
–– Ótimo, então! Vá se preparar pra escola que vou sair junto com você.
Yashalom elevou-se do sofá como uma autômata, olhando longamente para mãe por uma última vez.
Rumou para o banheiro e recostou-se na porta, se trancando lá dentro.
Deixou escapar um suspiro sôfrego.
–– Isso está mesmo acontecendo?! Eu sou mesmo uma aberração que quase destruiu toda a casa? Józef e Enzo têm mesmo o poder de mexer com a mente dos outros e foi isso que fizeram com Sarah? Ou finalmente enlouqueci e estou delirando tudo isso?!
Subiu a vista para a lâmpada incandescente do banheiro e viu, nitidamente, fagulhas de energia elétrica chisparem como se ali houvesse um pequeno sol.
Ela já estava enxergando a energia como se esta fosse mesmo densa, material.
O que antes apenas acontecia em lapsos, agora se tornava habitual.
–– Posso ainda não ter enlouquecido, mas será que conseguirei sobreviver a todas essas novas informações? Da verdade sobre minha vida? De que sou filha de um homem de outra dimensão e de que fui tirada de minha mãe? E ela? Será que ainda está... viva?
Inspirou fundo e abriu o chuveiro. Logo o banheiro estava tomado pelo vapor e a menina deixou que a água caísse por sobre sua nuca e ombros, ajudando a aliviar os músculos que já estavam tencionados.
Olhou para o próprio corpo, com um irracional medo de, um dia, acordar e encontrar alguma estranha anormalidade.
Afinal, ela era meio-demônio, não era?
Juntou as mãos em concha e quando ficaram cheias de água quente, levou ao rosto, sentindo o calor e a textura reconfortantes que aliviavam a enxaqueca provocada por suas lágrimas represadas.
Ela ainda não havia pensado minimamente em todos os detalhes relativos a si e à sua origem... não conseguia encontrar coragem para tanto.
–– Isso tudo é... loucura demais!
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Hybrida - Asas Negras
Romansa💥 História Completa e Finalizada 💥 Um ser híbrido extraplanar vive o despertar de suas faculdades especiais sem saber do que se trata ou de quem ele é, tornando-se uma vítima inocente daqueles que buscam vingança contra o pai que sequer conhece. A...
