Cap. 17 - Dourado

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A tarde outonal caia mansa, fazendo daquele sábado um dia tranquilo e agradável.

O Parque Rui Barbosa estava igualmente tranquilo, pois que o seu maior contingente de visitantes é durante a semana, de pessoas que trabalham nas redondezas.

Wojtyla, para aliviar um pouco a tensão dos estudos que fazia até a pouco, tendo dois livros e um caderno espalhados no gramado, jogava pedrinhas na lagoa, fazendo-as quicar algumas vezes na superfície da água antes de submergirem.

Quando se preparava para arremessar mais uma pedra, pára de súbito, baixando o braço e desistindo do seu intento.

Com uma expressão de desalento, o garoto se volta confuso para Enzo, que estava sentado no gramado um pouco acima, às costas dele, treinando com uma flauta transversal e tendo um livro de partituras aberto à sua frente.

-- O que aconteceu? - Enzo perguntou com a flauta a meio caminho dos lábios, notando a mudança repentina de humor do amigo.

-- Eu não sei, exatamente... um presságio, talvez... algo desagradável, como uma tristeza súbita. - Wojtyla confirmou, voltado-se para o amigo, mas olhando cegamente para o chão gramado.

Enzo baixou o instrumento para o colo, voltando-se preocupado para o outro.

-- Você? Tendo um presságio?! Você tem certeza do que está sentindo, Józef? Talvez tenha sido acometido por alguma lembrança que mexeu forte com o seu subconsciente. A saudade não é só poesia, não. Às vezes pode ser de um incômodo doloroso.

Wojtyla sentou-se ao lado do moreno, ainda intrigado pelo sentimento que se apossou dele por segundos.

-- Isso é mesmo muito estranho... eu jamais tive presságios, nem em minha vida passada.

-- Bem, há primeira vez para tudo... estamos aqui apenas há 17 anos, não sabemos, ainda, tudo que esse corpo denso permite da manifestação de nossos espíritos. Mas eu o aconselho a fazer uma investigação íntima. Pode descobrir muita coisa numa simples olhada para dentro de si mesmo.

Enzo levava a flauta aos lábios quando Wojtyla o interrompe, preocupado e vacilante, sem muita convicção de que seria boa ideia tocar no assunto.

-- Será... será que... a garota está bem? - Perguntou em tom ingênuo, sentindo-se um verdadeiro garoto de dezessete anos.

Enzo, se fazendo de sonso, respondeu sem desviar sua vista da partitura.

-- Garota? Qual garota?

A irritação inflou dentro de Józef e sua vontade era arrancar a flauta das mãos do amigo e amassá-la na cabeça dele.

Enzo percebeu a energia furiosa que emergiu do outro, voltando-se para ele com um sorriso cínico no rosto.

-- Por que se recusa a usar o nome dela? Tenta tratá-la com indiferença, como fosse uma qualquer? Ela é uma pessoa maravilhosa! E não um pacote que devemos manter em segurança até entregarmos ao proprietário!

-- Também não é assim! Responda com seriedade ao menos uma vez!

-- Eu respondo com muita seriedade a maioria das vezes, milico! - Enzo deitou a flauta sobre a partitura, encolhendo as pernas e apoiando os braços em seus joelhos.

Olhou para Wojtyla com um misto de impaciência e sarcasmo.

-- Eu reforcei as proteções entorno de Yashalom, se isso o deixa mais confortável, Filho do Frio! Se algo a ameaçar, as minhas Sombras me alertão... e as suas também! Ela está muito bem protegida, inclusive se conterrâneos nossos estiverem em busca dela! Fiquei tão preocupado quanto você ao saber do tal rumor, Józef!

Hybrida - Asas NegrasOnde histórias criam vida. Descubra agora