Cap. 07 - Ímpeto

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Józef Wojtyla estava debruçado na janela de seu quarto, com as mãos amparadas no parapeito.

Observava, centrando, a paisagem urbana de construções, telhados e uma ou outra copa de árvore.

Morava em um dos últimos andares de um edifício residencial e tinha a vista um pouco mais privilegiada: do seu quarto podia ver o sol nascendo por entre os prédios vizinhos e as garças voando em bando, na sua típica formação em V, em direção ao bairro costeiro Jacobina.

Conforme o sol subia no horizonte, seu clarão amarelo-alaranjado ia vencendo e rompendo a escuridão, formando sombras lânguidas pelo chão.

Wojtyla já estava naquela posição desde antes do sol nascer, quando era apenas um feixe dourado na linha do horizonte.

Com as janelas escancaradas, a claridade entrou quarto adentro sem melindres, arrastando as sombras que pareciam se esconder em frestas da parede e assoalho, como se temessem a luz solar.

O garoto se pôs ereto, levando as mãos ao rosto e respirando fundo, como quem está cansado moralmente.

Voltou-se para o interior do seu quarto e viu a luz empurrar as sombras para debaixo dos móveis, onde sempre permaneceria escuro.

Não tivera uma boa noite de sono e a claridade indicava que já era hora de se aprontar para o colégio.

Passou a mão pela toalha que estava pendurada no cabideiro e jogou no ombro, deixando sua noite mal dormida para trás.

~*~

Após quinze minutos, Wojtyla, já arrumado para sair, passa apressado pela sala, onde seu pai tomava o desjejum na mesa redonda de vidro.

Ivan Wojtyla era um homem acima da meia idade, de ar grave e taciturno, que viera há cerca de três anos da Polônia com os três filhos, sendo Józef o mais jovem.

Os dois mais velhos retornaram poucos meses depois ao país natal, não se adaptando ao Brasil, a terra da falecida mãe.

O garoto apenas cumprimentou em polonês ao pai, pegando uma fatia de torrada e saindo apressado.

O homem não gostou do modo apressado do filho e ergueu-lhe um olhar ferino.

A tez avermelhada por ser muito branca, os cabelos ralos de um louro desbotado e os olhos de azul muito claro, o faziam parecer uma pessoa terrível, quando, na verdade, era apenas um homem amargurado por estar preso ao passado.

–– Por que tanta pressa, Józef? Ainda não é a sua hora de sair.

Wojtyla estancou sem muita paciência.

Ele era grato ao homem por ter lhe dado uma vida digna e confortável, mas não gostava dele como pessoa – sempre tão exigente e irredutível, amargo e orgulhoso demais para aceitar que certas coisas são imutáveis – como o passado, por exemplo.

–– Preciso entregar um trabalho hoje e tenho que acertar os últimos detalhes com meu grupo de estudos. –

O garoto respondeu secamente, voltando-se com má vontade para o pai.

Ivan, por sua vez, deu de ombros e levou a xícara fumegante de café à boca.

Só voltou a se pronunciar depois de uma gole.

–– Amanhã é o décimo aniversário de falecimento da sua mãe, Józef... eu o quero na missa em memória a ela! Não quero nenhuma desculpa de compromisso para não ir, está me entendendo?

O garoto inspirou impaciente, mas foi brando em sua resposta ao pai.

Ele nem mais se lembrava do rosto da mãe e menos ainda conseguia entender essa fixação das pessoas pela memória dos que já haviam desencarnado, prendendo-se ao que já passou, ruminando fatos e assuntos, especulando como seria se o falecido ainda estivesse entre os vivos... tudo isso que seu pai fazia, não aceitando que a esposa tivesse sucumbido à doença.

Hybrida - Asas NegrasHistórias para pegar e não largar. Descubra agora