Um ronronar alto e um focinho gelado foram os despertadores de Yashalom naquela manhã.
A garota fez uma careta sem abrir os olhos e afastou quem a cutucava no rosto, mas a gata era insistente: colocou as duas patinhas dianteiras sobre as costelas da menina e começou a massagear.
Como aquilo fazia cócegas, não pode mais ignorar.
Yashalom deu-se por vencida.
Graças à gata, ela havia acordado cinco minutos antes do relógio despertar, e isso significava que havia grandes possibilidades de chegar na hora certa ao colégio.
Como ainda não havia assimilado a ideia de dividir a casa com outra moradora, demorou ainda alguns instantes para que entendesse o que aquele gato fazia ali sobre ela, após o leve susto por encontrar aqueles enormes olhos a encarando.
–– Ah, perdão! Eu havia me esquecido de você!
Sorriu, levando a mão à cabeça da gata para um afago e só então o despertador tocou.
Yashalom viu aquilo como um bom presságio, pois tendo agora a companhia da gata, que se mostrou tão entusiasmada, talvez não perdesse mais a hora – e nem caísse mais em devaneios, tendo os súbitos apagões de consciência.
Quando viesse a tê-los, talvez a gata a trouxesse de volta ao mundo real, como agora o fez, tirando-a do sono.
Pegou o felino por baixo dos braços, colocando-o em pé entre as pernas, olhando-o nos olhos.
–– Vamos fazer um acordo: se você me vir dormindo em pé, paradona feito uma estátua idiota, você me acorda, falou? Se for necessário, vale até um arranhão! Tudo pra eu nunca mais cair naquela coisa de sonhar acordada!
A gata, que parece ter entendido, responde com um miadinho dengoso.
–– E um nome... você precisa de um nome, gatinha! Huum, você é tão bonita, apesar de estar maltratada... mas, tenho certeza de que ficará linda em pouco tempo, então vou te chamar de Lindinha, que acha?
A gata respondeu com um ronronar apaixonado, jogando a cabeça contra o peito da sua nova tutora.
Satisfeita e feliz, como raramente costumava estar, Yashalom abraçou a gata submissa, beijando-a atrás da orelha, deixando-a sobre a cama em seguida.
Jogou os cobertores de lado e pulou da cama, com entusiasmo e disposição que também, há muito tempo, não sentia.
Era como se, com a chegada da gata, a vida se tornasse novamente interessante.
~*~
Ainda faltavam quinze minutos para as sete da manhã, hora da entrada na Escola Darcy Ribeiro.
Yashalom vinha em passos céleres, centrada apenas onde pisava, pois sua mente mesmo estava em outro plano.
Trazia sobraçado ao peito o vasinho com a camélia vermelha, que agora estava realmente vistosa, com o botão de flor quase aberto.
Próximo ao colégio havia o tumulto generalizado de sempre: alunos em grupos esperando pelo sinal de entrada; outros chegando e abrindo caminho para passar; carros estacionandos para o desembarque.
Assim que Yashalom entrou, seu nome foi gritado e um segundo depois alguém se jogou em seu pescoço.
A única reação que pôde ter foi arregalar os olhos e torcer para não enfartar com o susto, pois que seu coração falhou em algumas batidas, deixando-a gelada por dentro.
–– Yasha! Que bom que você veio!
–– Rachel! Você é doida? Quase me mata de susto! – Rechaçou, desvencilhando-se da colega.
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Hybrida - Asas Negras
Romance💥 História Completa e Finalizada 💥 Um ser híbrido extraplanar vive o despertar de suas faculdades especiais sem saber do que se trata ou de quem ele é, tornando-se uma vítima inocente daqueles que buscam vingança contra o pai que sequer conhece. A...
