O hospital
19-12-2027
Um dia antes de morrer, meu pai recebeu duas visitas.
Ele não era um homem de receber visitas, na verdade, tirando meu tio Hugo, irmão de minha mãe, mais ninguém o havia visitado até aquele dia. E tio Hugo só fez aquela visita por estar passando por Markham ao norte de Toronto a trabalho.
O primeiro a aparecer foi um homem alto e sorridente, que se apresentou como Aaron Piaget, meu pai logo me pediu que os deixasse a sós. Em uma pesquisa rápida pelo nome dele em meu smartphone descobri ser um advogado de bens, escrituras e testamentos. Dez minutos após ele sair um homem alto e forte que aparentava ter mais de sessenta anos, usando um uniforme militar com uma insígnia dourada em forma de folha pregada em seu ombro chegou à porta do quarto do hospital.
— Boa tarde Major Irving. — Disse o homem estendendo a mão. — Você deve ser Tobias.
Concordei com a cabeça apenas.
Ele esperou alguns segundos antes de perguntar se poderia ter uma conversa em particular com meu pai.
Meu pai acenou com a cabeça.
— Vou a cafeteria comer alguma coisa. — Disse eu antes de sair do quarto.
O homem sorriu em agradecimento.
— Columbus Holden, porque não me disse que estava nessa situação. — Perguntou o homem ao meu pai quando eu já passava pela porta em direção a cafeteria.
A cafeteria ficava ao fim do corredor do andar inferior, peguei o elevador e caminhei lentamente, mas quando cheguei a cafeteria não queria nada, não sentia fome. Pedi um muffin e um chá e me sentei em uma das pequenas mesas redondas presentes ali. As pessoas não pareciam ter pressa naquele andar, pacientes faziam seus exercícios caminhando lentamente apoiados em seus suportes de soro e seus andadores. Médicos e enfermeiros passavam verificando e conversando sobre prontuários e outros familiares de olhares tristes e preocupados se sentavam e se levantavam inúmeras vezes dali.
Uma mulher em particular me chamou atenção, usava um lenço sobre a cabeça e tinha a pele bastante cinzenta, sentou-se algumas mesas de distância, usava óculos escuros, mas era visível que não havia olhado diretamente para mim, mesmo assim sentiu meus olhos sobre ela e me lançou seu dedo médio. Desviei o olhar, mas não conseguia não prestar atenção aquela mulher. Ela pediu um croissant de queijo e um suco de laranja, se sentou novamente na mesma cadeira colocando os pés juntos sobre ela e colocou seu livro sobre os joelhos para poder ler, pegou um cigarro e o manuseou em seus dedos sem o acender. A atendente da cafeteria viu, mas nada disse, parecia ser seu habito sentir o cheiro de seu vicio sem poder acendê-lo.
Já havia se passado vinte minutos quando me levantei para voltar ao quarto. Havia dado apenas uma mordida em meu muffin e tomado metade de meu chá, me sentia enjoado com essas visitas repentinas, advogado de testamentos e um Major do exército. Os médicos já haviam informado que sem um transplante de rim ele teria apenas mais duas ou três semanas de vida e enquanto ele estivesse ali e se recusasse a doação de parte de meu rim para o transplante apenas poderia ajudar com cuidados paliativos.
Eu tentava entender porque meu pai teimava tanto em se recusar um transplante de rim. Pedia a ele duas a três vezes ao dia que me dissesse o motivo daquilo, ele poderia viver por anos se aceitasse. Quando voltei ao quarto o Major já havia saído, ao lado da cama de meu pai estava uma pasta e uma carta fechada. Ele me pediu para que as guardasse e levasse comigo quando fosse a casa.
— Não vou hoje. — Respondi.
— Você precisa de um banho e precisa dormir algumas horas em uma cama e não em uma poltrona velha de hospital. — Disse ele.
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ANO 2033
Science Fiction1° 🥇 Concurso Escritores Lendários 1° 🥇 Concurso Livros de Flores 2° 🥈 Concurso Pandora 2° 🥈 Concurso The Best Um meteoro de 15 km de comprimento se chocou com a terra no oceano Pacífico próximo a Califórnia na madrugada do dia 2 de janeiro d...