Presos na maternidade
— Éramos em setenta e seis homens e mulheres a quatro anos atrás, fomos divididos em dois grupos, um grupo foi deslocado para uma missão de apoio ao hospital de campanha em Detroit e o outro grupo foi enviado para um hospital de campanha em Buffalo. — Disse o homem sentado à minha frente. — Eu estava no grupo que foi enviado para Buffalo. — Ele fez uma pausa. — Quarenta pessoas. — Ele deu um suspiro e me lançou um leve sorriso triste. — Tínhamos uma família no grupo, pai, mãe e filho, também tínhamos alguns casais jovens, irmãos, mãe e filho.
Ele respirou fundo, segurava em mãos sua faca de caça, passando a ponta afiada de sua faca na ponta de seu dedo indicador. Ele usava calças do exército e a habitual camiseta verde musgo que usavam por baixo do uniforme, ele havia retirado seu casaco que estava jogado sobre o encosto da cadeira.
— Lembro-me das palavras do meu Major no dia em que fomos destacados para as missões, ele pediu que desse um passo à frente as pessoas que não tinham para quem voltar, e que ficássemos ao seu lado esquerdo. Depois pediu que se houvesse ali casais e grupos familiares, que dessem um passo à frente e ficassem ao seu lado direito. No final tínhamos oitenta e quatro pessoas ali, o grupo restante tinha mais de duzentos soldados, foram destacados para suas cidades, servir e auxiliar nas suas cidades para poderem ficar mais próximos de seus familiares naqueles dias terríveis. Ele ainda deu uma última oportunidade, se alguém gostaria de ser dispensado por algum motivo. Oito pediram dispensa, ainda me lembro de seus rostos assustados, eram jovens, provavelmente haviam se alistado ao exército meses antes do anúncio oficial. Não estavam preparados para ouvir que o mundo estava acabando.
Olhei para o lado, Maisie se mantinha sentada ao meu lado, com as mãos juntas ao corpo, olhava atenta para aquele homem que falava calmamente com a gente. Ao lado dela, Charles também parecia atento aquele homem, mas me lançou um olhar preocupado. Sara estava a dormir depois de comer.
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Estávamos ali a quase três horas, onde haviam recolhido nossas armas e a mochila que Sara tinha em suas costas. Nossos carcereiros verificaram todos os bolsos da pequena mochila azul, e retiraram tudo que estávamos levando dentro dela, empilharam nossos itens sobre uma mesa enquanto falavam item por item para o homem que estava no comando. Quando terminaram foi a vez da revista, nem mesmo Sara escapou, o homem no comando, com sua voz calma e educada, pediu licença quando foi revistar Maisie, enquanto eu e Charles fomos revistados pelos dois homens ali presentes, onde acabaram por encontrar apenas minha faca de caça. Voltaram a repor todas as coisas na mochila e a levaram junto de nossas armas para algum outro lugar daquele hospital.
Passaram-se cerca de duas horas que haviam nos deixado ali dentro da antiga sala das incubadoras, o vidro que antes possibilitava que os visitantes e os recém papais pudessem observar os novos membros da família ainda estava ali, sujo e empoeirado, mas estava ali e era possível ver um dos homens, parado cerca de três metros daquele vidro, estava ao lado de uma grande lanterna de camping acesa, o que acabava por iluminar onde estávamos. Então ele entrou, o homem no comando, vinha trazendo duas tigelas em mãos, logo atrás dele entraram mais dois homens com mais três tigelas. Eles colocaram todas sobre a mesa, uma sopa de cebola com ótimo aspecto e um cheiro que me fazia lembrar a casa de meus avós.
— Escolham a tigela que quiserem e se acharem que posso estar tentando envenenar um de vocês, não precisam se preocupar, ele pegou na colher da tigela mais próxima e levou a boca, e repetiu o gesto sobre o caldo de cada uma daquelas tigelas. Maisie pegou as duas tigelas mais próximas dela e as passou para Charles e Sara, ainda demos uma boa olhada no rosto daquele homem antes de darmos nossa primeira colherada naquela sopa.
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— O primeiro ano foi o mais duro. De certo o mais difícil até agora. Sem energia, sem notícias, sem comida, as baixas temperaturas. Hoje fico impressionado de encontrar sobreviventes como vocês. — Seus olhos saíram da faca de caça que manuseava para os meus olhos e em seguida para os de Maisie até chegar na pequena Sara que dormia sobre um colchonete velho. — Principalmente uma criança.
As tigelas de sopa estavam vazias a nossa frente, junto as tigelas, uma pistola e um rádio comunicador militar, parecia ser um daqueles de uso exclusivo das forças armadas, que se comunicavam via satélite. O que me fez querer perguntar quantos satélites ainda estavam em funcionamento na órbita da terra, mas não queria interromper sua história. Vinha falando de como o trabalho nos hospitais de campanha tinham sido frustrantes pelo número de mortos todos os dias, dizendo que o fazia lembrar da crise de 2020.
— A uma cidade ao norte, Moosonee. Uma pequena cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes. — Voltou ele a falar. — Já éramos poucos, dos quarenta iniciais, estavam em vinte e oito, mas por algum motivo nosso superior resolveu deslocar dez homens para apoio no transporte de equipamentos para uma base militar subterrânea que existe nessa cidade em meio a uma nevasca. Nunca mais tive notícias desses homens. Nosso comandante morreu, os primeiros na linha de sucessão eram eu e um outro Tenente, não me sentia preparado e deixei o comando com ele, mas em menos de dois meses foi baleado em uma troca de tiros quando tentávamos recuperar equipamentos médicos de um hospital de campanha não muito longe daqui. E por destino, virei comandante desses poucos homens restantes. — Ele sorriu ao terminar de falar.
Não perguntou a nenhum de nós como havíamos conseguido sobreviver durante todo aquele tempo, mas parecia esperar que fizéssemos aquilo em algum momento.
— Vão ficar aqui essa noite — Disse ele minutos depois ao se levantar. — Vai escurecer em breve e para segurança de vocês não posso deixar que saiam no meio da noite, e para a minha segurança, preciso confiar um pouco mais em vocês.
Ele era alto, com mais de 1,90. E nos olhou mais uma vez. — Não terminamos de conversar. — Disse ele caminhando em direção a porta.
O soldado que se aproximou, exibia uma insígnia no centro de seu uniforme de um soldado de primeira classe. Recolheu tudo que estava sobre a mesa e saiu.
A mulher de sotaque britânico e que parecia estar pronta para atirar em alguém se aproximou segurando nossos mapas.
Os mapas que até então estavam dentro do porta luvas do Hyundai Nexo.
Maisie me olhou com o mesmo olhar de espanto que eu tinha para ela.
Havia descoberto nosso carro, nossa comida, nossos remédios, nossa única chance de chegar a Gettsburg.
— Vejo que estavam planejando uma longa viagem de férias. — Comentou o homem pegando os mapas em suas mãos. — As lanternas serão apagadas as dez da noite, sugiro que durmam. – Disse o homem se afastando em direção a porta, ele caminhou lentamente sem nem olhar para nós, e assim que ele saiu, a porta se fechou atrás dele.
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ANO 2033
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