A advogada de defesa

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A advogada de defesa

19-08-2033

Não tínhamos nenhum tipo de relógio, mas não devíamos ter dormido mais do que uma ou duas horas durante toda aquela noite naquele lugar. Eu e Maisie dormíamos na mesma posição, sentados um ao lado do outro quando um dos soltados apareceu a nossa cela para verificar-nos.

Era um soldado de primeira classe de rosto magro e jovem, e os cabelos raspados na lateral com tatuagens por todo o braço esquerdo. Apontou a lanterna que carregava para os nossos olhos nos forçando a levar as mãos a frente dos olhos para desviar da forte luz.

E ordenou que o seguíssemos.

— Charles, acorde. — Chamou Maisie. — Vamos.

— Não, os dois não, minhas ordens são para levar vocês dois. — Disse o soldado se virando para ela. — Apenas vocês dois.

Charles abriu os olhos e ao perceber o que acontecia quis intervir, mas Maisie o abraçou e mandou que apenas esperasse por ela.

— Eu por você — Começou ela, quase um sussurro.

— Você por mim. — Disse ele em resposta a olhando nos olhos.

— E o mundo contra nós. — Ela levou seu polegar a sobrancelha esquerda dele e a acariciou, em seguida se aproximou e beijou a testa.

— Cuide de Sara. — Disse ela dando uma olhada na garotinha que ainda dormia sobre o colchão velho.

Já havia visto ela repetir aquele gesto algumas vezes, no dia em que acordou, antes de irmos à escola, quando voltamos, quando chegamos ao bunker, antes de sair dele e agora. Aquilo parecia ser a forma de falarem um ao outro, "eu te amo", e "tenha cuidado".

Mas naquele momento, aquela fala entre os dois tinha um tom melancólico de despedida, e por algum motivo Charles compreendeu e se manteve sentado ao colchão, ao lado de Sara a olhar para nós dois a sair daquela sala e seguir pelo corredor escuro.

Caminhamos pelos corredores do hospital por cerca de dois minutos. Por todo o caminho, sentia a garganta seca e meu ritmo cardíaco acelerar quanto mais nos afastávamos de onde estávamos.

Nosso carcereiro andava a dois passos atrás de nosso lado em silêncio, falando apenas quando precisávamos virar em algum corredor, em suas mãos, empunhando uma pistola e um rádio comunicador.

Seguimos até uma porta vai e vem metálica e ao passar por ela nos deparamos com todos os homens e mulheres daquele grupo ali sentados, espalhados por quatro mesas. A luz fraca do teto funcionava, assim como um rádio amador sobre uma mesa no canto direito da sala, onde se encontrava o Tenente sentado a anotar alguma coisa em um caderno a sua frente.

A maioria dos que estavam sentados ali, usavam apenas suas camisetas verde musgo ou uma camiseta azul marinho, característica dos policiais e se viraram para nos encarar quando passamos pela porta. Aquilo me fez engolir em seco e esperar pelo pior.

Alguns comiam o que parecia ser um tipo de pão parecido com o pão sírio e tomavam café, sobre uma mesa vazia era possível ver algumas cartas de baralho, em um outro canto um homem se mantinha sentado sozinho a ler o que parecia ser A revolução dos bichos de George Orwell, um outro homem apareceu a uma bancada, vindo da parte de dentro do que parecia ser a cozinha do hospital, e só então me dei conta de que estávamos no refeitório. Ele trazia uma bandeja com mais alguns pães, usava um avental já bastante sujo por cima do uniforme policial que usava.

— Espero que tenham conseguido dormir. — Disse o Tenente se virando para nós. — Sentem-se. — Ordenou.

Ao lado dele a mulher de olhos verdes nos encarava, mesmo ali e repleto de soldados em volta, ela se mantinha com sua arma em mãos.

ANO 2033Onde histórias criam vida. Descubra agora