Under Pressure
No dia seguinte a refeição foi novamente espaguete com atum. E consegui encontrar onde havia escondido algumas barras de chocolate meio amargo no primeiro ano ali dentro. Mesmo não sendo da mais saborosa, Sara ficou bastante feliz quando lhe entreguei um pedaço generoso de chocolate. Charles voltou a ficar esperançoso com o rádio e passou toda a manhã a procurar novos sinais de sobrevivente. E Sara deixou de lado seus desenhos para fazer companhia para Charles e passou toda a manhã sentada sobre a cama no quarto a brincar com suas bonecas Barbie enquanto Charles insistia com aquele rádio.
Para mim e Maisie, retirei de baixo da pia da cozinha uma garrafa de vinho português, servi dois copos e entreguei um a ela.
— Eu sou de menor. — Indagou ela tentando não mostrar um sorriso.
— Acho que isso foi revogado a três anos atrás, principalmente quando você passou a ser a responsável por esses dois.
— E é assim que pensa em me conquistar? — Sussurrou ela soltando um sorriso ao tomar o primeiro gole.
— Pensei em te conquistar com uma dança. — Respondi
— Sou péssima dançarina e só de pensar em música já sinto vergonha de ter tocado violão no outro dia.
Ela deu mais um gole em seu copo de vinho.
— Você canta tão bonito, é lindo te ouvir cantar. — Confessei a ela. — Mas dessa vez pensei em colocar uma música dali.
Apontei para os livros empilhados próximos a TV e os outros aparelhos eletrônicos dali, onde se podia ver um pouco escondido uma caixa de vinis. Ela levantou uma sobrancelha e soltou mais um sorriso.
— Vinil?
— Sim. — Respondi. — Eram do meu pai, não sei se vai gostar de clássicos do rock.
— Alguns.
Procurei entre os discos de vinil de meu pai algum que eu pensava que poderia agradar a ela, era fácil identificar ali que não existia nada daquele século, mas alguns discos valeriam uma grana preta se ainda existisse quem os quisesse. Escolhi entre eles o que provavelmente seria um dos mais valiosos.
Coloquei na última faixa e em segundos todo o bunker já estava sendo tomado pelo som do baixo, palmas e pequenas batidas no prato da bateria, então a primeira estrofe de Under Pressure surgiu trazendo em seguida as vozes de Freddy Mercury e David Bowie.
Maisie sorriu ao me ver movimentar a boca como se estivesse eu a cantar aquela música.
Estendi minha mão para ela que a agarrou e a puxei para mim e começamos a dançar no pequeno espaço não ocupado daquele cômodo que se dividia em sala e cozinha.
Suas mãos estavam em meu pescoço enquanto mantinha as minhas em sua cintura. Seus olhos heterocromáticos, seu sorriso, sua franja alaranjada. Tudo em Maisie me trazia paz e força pra permanecer vivo e proteger aqueles três. E apesar da música não ser lenta, dançamos juntos como dois adolescentes em um baile de primavera.
E assim como na noite anterior, paro de pensar em qualquer outra coisa além de poder beijá-la e alguns segundos depois é isso que eu faço, e assim como na noite anterior enquanto olhávamos os mapas, Maisie correspondeu ao meu beijo e sinto seus dedos acariciarem meu rosto.
Sara voltou a sala, o que nos fez parar o que estávamos fazendo, admito que por um instante havia me esquecido da presença dos dois no quarto ao lado. Nos sentamos ao chão próximos dos discos, ela olhava algumas capas de discos raros já sem qualquer um que os quisesse comprar. Me recostei a parede e Maisie deitou-se ao chão com a cabeça sobre minhas pernas estendidas. Me olhava com um sorriso tímido e o rosto um pouco corado pela vergonha de quase ter sido flagrada por Sara. O que me fez pensar em qualquer coisa para falarmos naquele momento.
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ANO 2033
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