Confissão
A luz alaranjada, se transformando em um roxo purpura no horizonte anunciava a noite. Havia arrastado dois caixotes para perto do espaço vazio da parede semidestruída no quarto andar onde havíamos visto os alces pela primeira vez.
Maisie estava sentada ao meu lado, os dois em silêncio, apesar do que nos havia acontecido aquela manhã, ela não me evitara durante aquele dia, mas não parecia disposta a conversar sobre o que havíamos feito. Eu também não saberia o que dizer sobre aquilo, queria dizer que foi bom, mas eu não era um adolescente de quinze anos que precisava afirmar o que havia sentido e nem sair perguntando se ela havia gostado.
— Você está com frio? — Pergunto meio sem jeito.
De fato, a temperatura estava abaixando rápido aquela noite, e os ventos que sopravam da costa e entravam pelo buraco na parede onde estávamos fazia-nos sentir em um freezer. Maisie me olhou por uma fração de segundo e em seguida para a jaqueta preta que usava por cima do moletom dos leafs.
— Estou bem. — Disse ela, então passou as mãos pelos braços e os esfregou fazendo os pelos arrepiados se acalmarem do frio que sentia.
No mesmo instante arranque a jaqueta que usava e a coloquei sobre os ombros, ela sem nem mesmo me olhar, me lançou um sorriso de agradecimento.
O silêncio é ensurdecedor naquele momento, minha cabeça borbulha como uma panela de água fervente, as imagens que eu mesmo havia projetado dos abusos que Maisie havia sofrido pareciam reais demais em minha cabeça, como se eu estivesse ali, ao lado dela quando tudo aconteceu. Quero falar qualquer coisa, contar sobre qualquer coisa, tudo para que as imagens em minha cabeça sumam.
Os dedos da minha mão direita tocavam de leve sua mão esquerda, sua mão direita estava sobre o colo, passava os dedos com cuidado pela borda das pétalas da rosa que estava em seu colo.
Aleyna, que era a caçadora do grupo, conhecia melhor do que qualquer um ali as casas da região, e soube me dizer onde poderia encontrar uma flor para dar a Maisie, no momento em que lhe pedi isso, tinha todo um roteiro em minha cabeça, o que iria dizer e como iria agir. Mas ali estava eu, sentado ao seu lado, sem dizer uma única palavra, com imagens de seu abuso em minha cabeça e sentindo a pele macia de sua mão em meus dedos.
— De algum modo, tudo isso parece errado em minha cabeça. — Comecei a falar tendo as palavras a sair engasgadas e quase em um sussurro. — Eu gostaria que você fosse minha namorada. — Digo por fim.
Ela não me encara, seus olhos permanecem fixos no horizonte, mas é possível notar que ela os arregalara quando terminei de dizer.
Maisie move os lábios os umedecendo e retira sua mão de perto da minha, tenho por um instante a certeza de que eu havia estragado tudo, ela não queria nada daquilo, não queria algo sério comigo ou talvez com ninguém em meio ao fim do mundo. Esfrega a mão sobre a calça jeans secando o suor das mãos e volta a pousá-la sobre o caixote.
Noto que dessa vez a palma de sua mão estava virada para cima e sorriu, deixo minha mão escorregar para cima da dela e nossos dedos se entrelaçam. E naquele momento deixo que as batidas do meu coração se acalmem enquanto sorriu olhando para nossas mãos e para o céu que ia a cada minuto tomando uma cor mais e mais escura.
Ouço um barulho vindo do andar de cima. Um baque sobre o concreto que divide o quarto andar do telhado onde estavam os homens a tomar guarda.
— Você acha que seus pais iriam gostar de mim? — Perguntei lançando um sorriso sedutor para ela.
Ela ri, e sei que não está a sorrir pela pergunta, mas pelo olhar que havia feito.
— Não se fizer essa cara. — Respondeu ela.
— Seu irmão vai gostar de mim apenas até saber que estamos juntos. — Comentei.
— Por isso prefiro que ele não saiba disso por enquanto. — Suspirou ela.
— Por mim, eu contaria a todos agora mesmo, mas eu entendo. — Digo
— Eu não preciso perguntar, eu sei que seus pais gostariam de mim. — Brincou ela.
Ouço novamente o som de algo batendo contra o concreto no andar de cima e aquilo chama a minha atenção, um pouco mais distante dessa vez, mas tento não pensar naquilo, alguém havia pisado em falso em algum buraco e feito aquele som, imaginei.
Então voltei minhas atenções novamente para Maisie.
— Meu pai sim, meu pai adoraria te conhecer e te contaria toda minha vida, iria querer que ficasse para o jantar, que experimentasse sua famosa torta de pêssegos e canela, depois, se mostrasse minimamente interessada iria querer conversar sobre guerra, sobre armas, sobre planetas e sobre o time dos Redskins. — Digo a ela. — Ele não teve muito tempo, mas estava aprendendo a gostar dos Raptors de Toronto também. — Completei.
— E sua mãe?
— Ciumenta. — Sorri.
— Eles nunca pensaram em ter mais filhos? — Perguntou ela.
— Nunca comentaram nada sobre isso comigo. Mas acredito que iriam adorar ter tido mais um.
— Minha mãe planejava ter mais um filho, — Comentou ela puxando a mão e a levando até a calça para limpar o suor. — Ter a Sara dentro de casa estava deixando-a cada vez mais animada com a ideia de ser mãe novamente.
— Falando nisso, — murmurei franzindo a testa com as palavras em minha cabeça que estavam a ponto de sair pela minha boca. — Precisamos começar a nos prevenir.
Ela sorri. — Concordo.
É um assunto delicado e um pouco estranho de se falar cinco minutos após dizer que quer alguém em namoro em meio a um apocalipse. Já seria bastante estranho essa conversa apenas com a parte de tê-la pedido em namoro a poucos minutos, ter um apocalipse acontecendo parece ser um bônus, mas Maisie continua a falar sobre o assunto como alguém que já sabia muito bem o que queria em relação aquilo.
— Não estou no meu período, mas é melhor não arriscar quando fizermos alguma coisa.
Ela se aproxima e beija meus lábios, estou de olhos fechados, mas sinto ela sorrir e seus dedos tocarem os meus, ela continua a beijar meus lábios o que nos mantem distraídos do que poderia estar acontecendo no andar de baixo, onde todos já se preparavam para deitar após o jantar. E foi entre um desses beijos que ouvimos o som de uma explosão vindo do andar inferior.
Nossos olhos assustados um para o outro confirmava que aquele som não era algo de nossas cabeças, e com o pensamento em Charles e Sara corremos em direção a escada que dava para o terceiro andar.
Logo o som deu lugar a disparos, sons de tiros sendo disparados de rifles e revolveres, e uma nova explosão que parecia vir de algum corredor distante. Passos a correr e gritos se misturavam aos estrondos dos disparos nos corredores escuros do terceiro andar daquele hospital.
O chão a baixo de nossos pés tremia a cada novo som de explosão e nossos ouvidos doíam com o som dos disparos que propagavam pelos corredores vazios e escuros daquele hospital. Gritos vinham do lado esquerdo e sons de passos a correr do lado direito, os disparos podiam ser ouvidos de todas as direções e uma nova explosão nos deixou surdos por alguns instante, a poucos metros de nós o piso superior desabou, abrindo um grande buraco e nos impedindo de seguir em frente.
Viramos à direita entrando no corredor que levava aos quartos, os sons de tosses e passos demonstravam que alguém estava próximo dali, mas era muito escuro para perceber quem. Até que uma lanterna iluminou nossos rostos.

VOCÊ ESTÁ LENDO
ANO 2033
Science Fiction1° 🥇 Concurso Escritores Lendários 1° 🥇 Concurso Livros de Flores 2° 🥈 Concurso Pandora 2° 🥈 Concurso The Best Um meteoro de 15 km de comprimento se chocou com a terra no oceano Pacífico próximo a Califórnia na madrugada do dia 2 de janeiro d...