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Gritei.

Gritei sentindo meus dedos arderem de dor pelos socos que eu havia acabado de dar no chão de madeira daquela casa, gritei pela culpa que sentia em ter tirado a vida de três homens, gritei pela sensação de derrota da humanidade que presenciei, gritei por estar vivo.

Soltei um grande suspiro enquanto relaxava os dedos das mãos, que ardiam e sangravam pelos socos que eu havia dado no chão. Me levantei e dei uma olhada para aqueles corpos, três homens mortos, talvez tivessem sido policiais, taxistas, mestre de obras, ou simples carteiros, talvez tivesse perdido sua família quando tudo começou ou talvez alguém ainda os esperava chegar. 

Me aproximei primeiro do grandão, me ajoelhei sentindo repulsa de mim mesmo pelo que estava preste a fazer, mas enfiei minhas mãos pelos seus bolsos da calça militar e pelo grande casaco de inverno a procura de qualquer coisa que ele carregasse. Havia uma faca de caça, alguma munição de espingarda e uma barra de chocolates já mordida. Fui para o lado de fora da casa, e dei uma olhada no homem que eu havia matado pela janela, era mais jovem que os outros dois, parecia não ter mais que vinte anos, a sua pele era muito branca com os cabelos negros raspados na lateral formando um topete, seu nariz era fino e arrebitado, usava calças camufladas de selva e um casaco de couro, a sua arma ainda estava presa em suas mãos, carregava um rifle de assalto MK116 que me fez arregalar os olhos,  — Isso sim é uma boa arma. — Pensei já jogando o rifle as em minhas costas e verifiquei seus bolsos, com ele havia apenas um pacote aberto de biscoitos de arroz no bolso do casaco.

Caminhei até o meio da rua e me aproximei do homem jogado ao chão com a rosto encostado contra o asfalto, havia na parte de trás de sua cabeça dois pequenos buracos onde as pequenas bolinhas de chumbo havia o atingido, o virei e me assustei ao ver seus olhos ainda abertos, mas completamente mortos. Dentro do casaco que usava, dois pentes de rifle e duas barras de chocolates ainda fechados. Um volume se sobrepunha no bolso de sua calça jeans e ao levar a mão ao seu bolso me surpreendi com a presença de uma garrafinha de alumínio de uísque, ao pegá-la, abri e cheirei aquele liquido antes de guardá-la em meu bolso, então caminhei de volta para dentro da casa.

Recolhi a espingarda do grandalhão e a coloquei sobre a bancada da cozinha, joguei a pistola do irlandês também ali, uma Glock 9mm prateada e o MK116, e fiquei ali, parado, com as duas mãos sobre a bancada, tentando segurar a bile que parecia subir pelo meu esôfago. Se passaram quase cinco minutos quando peguei novamente a pistola 9mm e retirei a bala que estava no gatilho e enfiei a arma em minha cintura, peguei minha escopeta que eu já havia descarregado e a coloquei novamente as costas, empunhei o MK116 e a espingarda, caminhei para dentro do pequeno escritório, voltei a abrir o alçapão e torci para que os medicamentos e as latas dentro da mochila não tenham estourado coma queda.

Joguei a mochila as costas e peguei os kits, em seu lugar deixei a espingarda jogada no canto daquela pequena sala secreta. Subi com cuidado e fechei novamente o alçapão, tomando todo o cuidado para deixa-lo bem escondido pelo tapete e as poltronas. Caminhei em direção a porta dos fundos da casa com a minha pistola na mão direita e os dois kits de primeiros socorros na mão esquerda.

Precisava sair daquela casa o mais rápido possível. Todos aqueles tiros e gritos com certeza alertou qualquer pessoa viva em um raio de mais ou menos dois quilômetros. O silêncio da cidade morta propagava ainda mais os sons dos vivos. Ainda tinha o quarto homem, o irlandês, não poderia me esquecer dele, provavelmente está pensando em um plano para vir atrás de mim, de matar o assassino de seus companheiros, mesmo ferido, seria perigoso esperar até que ele resolvesse voltar ali com reforços. Em seu lugar, seria muito agradável se eu estivesse o mais longe possível dali quando isso acontecesse. Mas por algum motivo aquilo não parecia ser possível.

ANO 2033Onde histórias criam vida. Descubra agora