Capítulo 15

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Índia 🦋

Chegamos na Rocinha e todo mundo cumprimentando Guto com o maior sorriso, dava pra ver que mesmo que alguns ainda tenham medo ou raiva dele, a maioria gosta pra caralho.

Cumprimentei os que eu conhecia de vista ou os que sorria pra mim provavelmente sabendo quem sou, e Guto guiou pra um restaurante simples mas que estava com um cheiro maravilhoso.

Guto: Cole tia, descola duas feijoada pra nós aí. - Ela sorriu assentindo e anotou no caderno o que mais a gente ia querer.

Me sentei numa mesa afastada que dava visão do campo e dos moleque jogando, quando Guto acabou se sentou na minha frente com uma garrafa de coca cola.

Comecei a tomar o refrigerante enquanto olhava pra quadra, saudade quando era eu ali, felizona, depois que os bota mataram meus avôs no campinho do Vidigal, nunca mais consegui entrar lá como eu entrava quando era menor. Balancei a cabeça com o olho cheio d'água e fiquei olhando pra mesa.

Guto: Qual foi, Índia?

Índia: Nada não, tá mec.

Guto: Viu alguém aqui que já te fez mal? Porque se for me fala que eu mato agora. - Soltei um sorriso negando com a cabeça, ele me olhava curioso mas com preocupação.

Índia: Tipo assim, só vou falar, não é pra falar nada depois, só me escutando já ajuda, beleza? - Ele assentiu e quando comecei a falar minha voz embargou me fazendo respirar fundo - Quando eu tinha 10 anos, os bota pegaram meus avôs na covardia, eles nem era envolvido mas a upp queria atingir meu pai. Eles mataram meus avôs no campo lá do Vidigal, tá ligado? Eu sempre brinquei lá pra caralho, e depois desse dia, eu nunca mais consegui entrar. E o foda é que eles foram lá pra pegar eu e meu irmão, mas nós tava escondido e eles pegaram meus avôs. E desde menor eu sempre joguei com os meninos que hoje são soldados do meu pai, eu cresci junto com a maioria ali, eu e o Thiago, eu amava jogar futebol, queimada e o caralho naquela quadra, mas depois disso eu nunca mais joguei e foi por isso que me fechei mais. Eu sentia que se as pessoas soubessem minhas fraquezas iriam usar contra mim assim como usaram os meus avós. Eu não podia deixar ninguém sofrer por mim, e parei de ser como eu era. Segui os conselhos do meu pai, esfriei com todo mundo e hoje eu tô aqui, pô. - Respirei fundo pra não chorar, nunca cheguei nesse ponto nem com a Mirella que é minha melhor amiga.

Guto ao mesmo tempo que me faz sentir forte por sempre me mostrar isso quando conversamos, me faz sentir vulnerável porque desde a praia eu sinto que com ele eu posso ser eu mesma, a menina de 16 anos com medo do mundo e do que vai vim pela frente. Mas ainda sim, uma parte de mim não confiava com medo dele usar isso pra me fuder. E não por culpa dele, mas por minha dificuldade de me abrir facilmente.

A feijoada chegou e ele respeitou o que eu pedi de não falar nada. Comecei a comer e ele fazia gracinha o tempo inteiro me fazendo rir.

Guto: Já avisei teu coroa, tu vai passar o dia comigo, beleza? E a Mirella falou pra você usar camisinha. - Comecei a rir negando com a cabeça, essa garota é filha da puta.

Nos levantamos e ele foi fazendo um tour pela favela como se eu não conhecesse, ficamos ali jogando conversa fora depois de tomar sorvete e me sentei na porta da sua casa.

Guto: Sentou por que, pô? A visita não acabou.

Índia: Tô cansadona, na moral.

Guto: Dizer não na casa dos outros é falta de educação. - Ele me pegou no colo e me colocou na garupa da sua moto, ele foi subindo em direção ao restaurante até parar do lado do campinho.

Índia: Não, Guto.

Guto: Aqui é a quadra da Rocinha. - Disse Rocinha devagar pra me mostrar que não era o Vidigal, sorri pro mesmo que me olhava - E agora eu vou te ensinar como se joga futebol.

Índia: Se bobear jogo melhor que você.

Guto: Tu brinca mais que a brincadeira, garota!

Deixei meus pertences junto com os dele no canto da quadra, na hora que Guto chegou geral correu pra abraçar ele, só menor de uns 10 anos.

Xxx- Pô Guto, nunca mais colou aqui.

Guto: Tô trabalhando demais, menor. - Disse bagunçando o cabelo de um que sorriu pra ele.

Xxx- Tu tá de fiel? Que isso, gata pra caralho. - Eu comecei a rir e o Guto deu um tapinha na cabeça do moleque.

Guto: Olha o respeito, filho da puta. Essa aí é a Índia, patroinha do Vidigal.

Xxx- Caralho, é verdade que você salvou o Guto do Rato? - Assenti rindo pra Guto que cruzou os braços, filho da puta orgulhoso.

Xxx- E que tu participou da missão pra tirar o Neguinho e o Magnata da cadeia? - Assenti de novo e eles começaram a falar de várias coisas que eu fiz e chegou aqui na Rocinha.

Xxx- Porra, tu é foda e é mó novinha. Quero ser assim também.

Índia: Vai estudar, pô. Depois que entra, não sai mais não.

Xxx- E tu quer sair?

Índia: Eu e o Guto já tá nessa e não tem como sair nem se quiser. Nós somos herdeiros, mesmo que a gente saia, vamos viver em guerra longe da favela o que é pior ainda. Vocês não, pô, tem uma vida toda pela frente e pode ser feliz sem passar perrengue e risco de morte.

Xxx- Morando aqui na favela ninguém consegue ser alguém na vida não tia.

Índia: Você vai conseguir mudar isso, demorô? Vai ser o exemplo pra esses policial safado que favela não é só crime, que tem vários menor com sonho e que vai realizar tudo, sem precisar da ajuda de nada que seja errado. - Eles assentiram sorrindo, Guto começou a jogar e todo mundo saiu correndo, tirei meu chinelo e comecei a jogar também, os menor jogava bem, tô passando sufoco. Sedentária é pouco, colega!

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