Índia 🦋
Hoje, dia 4 de janeiro, fazia mais um ano que meus avôs foram mortos, por minha culpa.
Mal sai do quarto e ninguém nem tentou forçar, todo ano é a mesma coisa.
Não conseguia derramar uma lágrima mas a dor que eu sentia no peito, acabava comigo.
A cena se passava em câmera lenta, tudo que rolou naquele dia, aquela merda de dia.
Já tinha se passado anos mas isso nunca saia da minha mente, sempre que o dia estava chegando eu me lembrava e me culpava, assim como tá sendo nesse ano.
Fico pensando em como seria se eles tivessem nos achado, fico pensando em como foi pro meu pai e pro tio Pedrinho ver a cena e não poder fazer nada. Eu não sei se aguentaria.
Aquele lugar que era meu lugar de paz onde eu brincava na minha infância, só me traz dor e eu não consigo me libertar disso.
Tio Antônio era um grande amigo do meu avô, ele cuidou ainda mais de mim desde que ele foi embora, na verdade, no dia da morte dos meus avôs eu e Thiago estávamos escondidos com ele. Ele também é um avô pra mim mesmo não sendo a mesma coisa.
Eu estava desolada, queria liberar minha mente pra eu me permitir esquecer essa data, essa lembrança, pelo menos um ano.
Fechava meu olho tentando me dispersar e tudo voltava mais forte, dei voltas em meu quarto e nada parava minha mente que estava a milhão.
Eu preciso sentir essa dor, eu preciso me libertar. Eu não choro faz tanto tempo, não lembro nem a última vez. E por mais que eu queira muito, não sai, eu me sinto sufocada mas não consigo mudar isso e me permitir soltar nem que seja uma lágrima.
Escutei batidas na porta e continuei ajoelhada no chão com o rosto no joelho, eu não queria nada, só me martirizar mais.
Tava tudo difícil pra caralho, cada vez mais perigoso, tenho medo de um dia voltar pra casa e alguém ter morrido ou eu nem sequer poder voltar pra casa.
Escutei a maçaneta virando e vi a porta se abrindo, levantei meu rosto lentamente vendo Guto entrar preocupado.
Guto: Quer ir pro nosso lugar?
Índia: Não precisa.
Guto: E a promessa em? - Disse se aproximando de mim que continuava imóvel.
Índia: Não preciso ir a lugar nenhum. Qualquer lugar com você, é o melhor lugar pra mim.
Ele sorriu me olhando por alguns segundos e se sentou na minha frente.
Guto: Conversa comigo.
Índia: Não da, esse assunto me sufoca, me deixa entalada. - Olhei pro chão suspirando - Eu juro que queria, tu não tem noção de como eu queria mas essa dor tá presa, vou viver sempre com essa culpa.
Fiquei olhando a foto que estava em minha mão, eu e Thiago no meio dos dois tão sorridentes.
Guto: A culpa foi da UPP, a maior covardia que o governo foi fazer.
Índia: Era pra ter sido eu lá. Eles morreram por minha causa, minha causa e do Thiago.
Guto: Tu mata e morre por quem tu ama, eles fizeram o mesmo por tu.
Índia: Não consigo aceitar que alguém morreu por minha culpa.
Respirei fundo e me levantei de onde estava indo deitar em seu colo. Ele já sabia que eu ia fazer isso e se ajeitou.
Guto: Já fazem anos, Luiza. Tu vai se culpar por isso pelo resto da vida? - Assenti fechando meu olho, encostei meu rosto no dele ainda de olhos fechados - Você acha que eles iriam gostar de saber que tu tá assim? Se culpando? Isso foi a maior prova de amor que alguém podia fazer pô. E eles fizeram por você.
Índia: Eu só queria chorar pra ver se alivia mas não consigo, todo ano eu tento mas a dor fica ainda mais apertada.
Ele me abraçou forte e eu respirava fundo sentindo o conforto que ele me passava aos poucos.
Índia: Agora sou eu que te peço, não me larga pô. Não sei o que eu faço se acontece algo com tu.
Guto: Eu e tu sempre mandada. - Ele me deu um beijo enquanto fazia carinho em meu rosto, sem malícia alguma - Vamos sair pra comer? Tu tá sem comer desde ontem que já me falaram, se continuar assim tu passa mal pô. Tá calor, fode mais ainda.
Índia: Não tô com fome.
Guto: Até chegar lá tu fica. - Ele se levantou me puxando, entrelacei nossos dedos e desci as escadas.
Meu pai e tio Pedrinho que haviam tirado o dia pra eles, me olharam surpresos.
Neguinho: Como tu tá princesa? - Se levantou num pulo vindo me abraçar, eu via em seu rosto como estava doendo também.
Índia: Mal pra caralho.
Neguinho: Obrigada por ter tirado ela do quarto, na moral. - Ele abraçou Guto, me soltei indo em direção do tio Pedrinho que me olhava com tristeza em seus olhos.
Índia: Eu te amo, viu? Vou ser sempre tua Índia.
Pedrinho: Não vou suportar perder tu também não.
Índia: Tu nunca vai me perder pô. Eu e tu até o fim. - Beijei seu rosto e ele me abraçou soltando umas lágrimas.
Depois de um tempo dei a mão a Guto e sai caminhando até ao restaurante para almoçar.
Índia: Obrigada por tudo. - O puxei dando um beijo, ele segurou em minha cintura retribundo, finalizei com uns selinhos e fiquei o olhando - Tu é foda pô.
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O Nosso Para Sempre
Fiksi Penggemar"O nosso para sempre foi complicado, por muitas vezes achei que não aguentaria, que era o fim pra nós. Mas nunca foi, nós sempre dava um jeitinho de tá ali um pelo outro. E por isso foi tudo perfeito, talvez não pros outros mas pra nós sim, e é isso...
