CAMILA

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– Então é só com transplante?! - não foi exatamente uma pergunta, mas, mesmo assim, resolvi esclarecer para toda a família.

– Infelizmente, ou melhor, felizmente, sim! - Shawn apertou minha mão e sorriu em minha direção.

– Pense positivo, meu bem. Ainda há uma saída. O transplante é melhor do que não haver saída nenhuma.

– Tudo bem, mas... como é a fila de espera para esse transplante? - Aali se pronunciou pela, talvez, segunda vez desde que chegamos da consulta de hoje. Ela estava estranhamente quieta.

– A fila de espera não é a mais curta, Aali. - Shawn disse.

– Nunca é... - Sofia murmurou um "ai" quando Tony lhe deu um leve puxão na pele do braço.

– Realmente, Sofi. Mas temos fé, não é mesmo?! - minha sogra tentava manter a sua postura confiante mas sua voz vacilou constantemente durante suas poucas falas em meio a nossas explicações sobre a consulta.

– Temos sim, mamãe. Vai dar tudo certo. Já estou na fila de espera e, por mais que a doação de olhos não seja algo tão constante, eu tenho chances!

Olhei em volta mais uma vez aquela tarde e pude reparar na feição de cada um ali presente. Meu sogro apresentava algo que se beirava ao orgulho. Ele tem orgulho por Shawn ter superado uma etapa. Minha sogra apresentava medo, medo do futuro, talvez?! Ou seja apenas medo de mãe, medo de que o sonho de seu filho nunca se realize.

Sofia encarava Oli em seu colo com um olhar de admiração, o mesmo que ela olhou para mim quando eu contei tudo sobre a consulta de hoje. Tony não parecia surpreso e isso não me surpreende.

Mamãe e papai estão divididos entre ter fé e ser racional e Aaliyah, bem. Ela é a única que não deixa claro para mim seus sentimentos ou pensamentos, ou os dois. Ela estava perdida. Com os olhos vagos. Senti seu pavor e, por um momento, vi fumaça saindo de dentro de seu cérebro que trabalhava como uma máquina para processar toda a informação que eu despejei sobre todos aqui presentes.

O celular de Aali tocou e ela rapidamente atendeu indo em direção ao jardim da casa.

– Ok. Nós amamos muito todos vocês mas precisamos ir embora, meu bem. - mamãe me deu um beijo na bochecha sendo seguida de meu pai.

– Isso é nossa deixa, já entendi. - Tony levanta as mãos como se estivesse se rendendo.

Os encontros da minha família são sempre como fim de festa. É só uma pessoa puxar a fila que não sobra mais ninguém além do aniversariante.

– Aali não vai com vocês? - Shanw pergunta aos pais depois de ser beijado pela mãe.

– Ela está de moto. Mas acredito que logo estará fora daqui. - Karen pisca um dos olhos para mim e imediatamente eu ruboriso.

Em menos de cinco minutos Aaliyah saiu do Jardim e se deu conta do abandono eminente de nossos parentes.

– Mila, eu estou indo, ok?! Dê um beijo em Shawn por mim. - ela beijou minha bochecha e logo saiu pela porta.

Escorsi a cabeça no sofá e fechei meus olhos logo ouvindo os passos de Shawn se aproximando de mim. Não sei o que chegou primeiro, o som de seus passos ou o cheiro gostoso que o sabonete dele tem.

– Aali também já foi? - não me dei ao trabalho de abrir os para responder que sim. – Está cansada?

Lentamente meus olhos se abriram e o encarei sem mover a cabeça do lugar.

Eu estava cansada, mas ele estava aflito.
Me ajeitei no sofá e o ajudei a se sentar ao meu lado.

– Não. Estou bem. Mas você parece preocupado - franzi o cenho.

– É só que... você não acha estranho eu torcer para que alguém morra por uma futilidade. Quer dizer, eu nem ao menos consigo torcer para isso. Não sei nem se eu consigo pedir para Deus me enviar um par de olhos. - acariciei seu rosto e ele apoiou a bochecha em minha mão. – Eu quero muito poder ver você mas... queria tanto que houvesse outra maneira de isso acontecer.

– Ok. Você quer tirar o seu nome da lista? - ele suspirou.

– Não. E me sinto egoísta por isso.

– Meu bem. Preste bastante atenção em mim. - seu rosto se levantou como se ele pudesse me encarar. – O fato de você estar na lista de espera não significa que você torce para que alguém morra. - ele suspirou. – A única coisa que acontece é que, todos os dias, centenas de pessoas morrem, sejam elas doadoras ou não, você não vai atrás de matar ninguém. Só vai receber um presente de uma pessoa que, antes mesmo de morrer, sabia que queria ajudar alguém. Você não está torcendo para alguém morrer, você está torcendo para que, quem morrer, seja doador e compatível com você.

– Tudo bem. Você tem razão. Vou enfiar isso na minha cabeça. - ele sorriu. Um sorriso sincero e relaxado. – Quer o que para o jantar?

– Não estou com fome. Mas se você quiser pedir uma pizza de frango com catupiry eu ficarei agradecida. - salvei imaginando a grande massa redonda recheada a minha frente.

– Pizza? É pra já. - ele rapidamente tirou o celular do bolso da bermuda e procurou com a ajuda daquela voz mecânica acelerada o contato da pizzaria. – Boa noite. Uma pizza grande de frango com catupiry. Isso. Quer refrigerante, amor? - o celular foi para o seu ombro enquanto ele esperava minha resposta.

– Sim.

– Isso, pode ser guaraná. - mais uma vez o celular foi afastado de sua orelha. – Mais alguma coisa, querida?

Busquei nos meus desejos comilões se eu queria mais algo e de repente se acendeu a vontade.

– Sorvete. Quero de flocos. - levantei depositando um beijo em sua testa enquanto ele terminava o pedido.

Deixei tudo separado encima do balcão apenas esperando a pizza chegar.

– Saiu do regime? - ele apareceu escorado no batente da cozinha. Mostrei a língua para ele mesmo que ele não a pudesse ver.

– Só pra você saber, eu te mostrei a língua. - aborreci minha voz e ele soltou um leve riso.

– Eu até poderia dizer que você está grávida se eu não tivesse certeza de que não está.

Ok, é nítido. Shawn quer ser pai. Qualquer oportunidade que ele tem de falar sobre o assunto, ele fala. Talvez seja a hora de deixar mesmo nas mãos de Deus. Chega de anticoncepcionais.

– Quem garante? - brinquei enquanto enlaçava meus braços em seu pescoço.

– Bom, os seus remédios tem boa eficácia... não sei se sou sortudo o suficiente pra fazer parte dos 0,01 por cento que não é garantido.

– É, mas... eu estava pensando. - ele apertou seus braços ao meu redor. – Já que vamos ter que esperar aparecer o doador. Que tal suspender o anticoncecional?

Os olhos de Shawn se iluminaram e ele sorriu.

– Tenho certeza de que você seria a grávida mais linda desse mundo! - ri jogando a cabeça para trás.

– É claro que sim. Mas é fácil dizer isso quando você não me vê. - Shawn me soltou e levou sua mão ao peito fingindo estar ofendido.

– Você acha mesmo que eu não investiguei? Saí perguntando para muita gente se você era tão bonita quanto eu pensei fosse. - gargalhei com sua expressão abobalhada. – Meus filhos precisam ser lindos. Não poderia correr esse risco. - deu de ombros se agarrando a mim mais uma vez.

– Mas e se quando você me vir não achar o que procura? - tentei soar brincalhona, mas no fundo eu realmente tenho esse medo.

Shawn foi passando os dedos desde o meu pescoço até o topo da minha cabeça. Fechei os olhos sentindo seu toque.

– Não tem como isso acontecer.

– Como não? - deitei em seu peito.

– Desde que você entrou na minha vida, Karla Camila Cabello Mendes. Eu não procuro mais nada além de você!

Paixão às Cegas.Onde histórias criam vida. Descubra agora