28. Família Complicada

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Quarta - Feira, 9 de setembro de 2020.

  Eu estava com a perna bamba mas a língua estava afiada, tirei os braços dele da minha cintura e comecei a subir a escada de madeira, parei apenas para dar uma olhadinha pra trás, ele se encontrava um pouco perdido graças à minha reação; dei um sorrisinho cínico:

  – Quem disse que eu vou deixar você ficar por cima?

  Ele deu um sorriso safado e eu voltei a subir as escadas, ouvindo o ranger da mesma enquanto o Ethan subia atrás de mim.

  Ao terminar de subir a plataforma me sequei com a toalha que o Ethan havia levado na mala, e coloquei apenas o short, o tênis e deixei a parte de cima do biquíni à mostra. O Ethan guardou as cordas e ganchos na bolça e colocou o tênis.

  Descemos da construção e nos pusemos a andar novamente pela mata, ele estava um pouco à minha frente então pude notar a presença da mesma caveira que ele havia no pescoço, desenhada em tamanho maior nas costas do mesmo. Era engraçado mas apenas uma tatuagem deixou ele ainda mais sexy.

  Não ficamos muito tempo andando e logo chegamos à grande cachoeira, era tão bonita que parecia ser uma pintura.

  Andei até a borda e fiquei olhando a paisagem, as árvores, as pedras, a água, tudo tão sintonizado:

  – É por isso que eu disse que tenho uma parte de mim voltada ao campo. - O Ethan falou se sentando no chão ao lado dos meus pés.

  – Essa lugar é perfeito. - Me sentei também.

  – Sim. As memórias ainda estão tão frescas, eu vinha aqui apenas com a minha avó e a Dona Dalji, elas amavam jogar conversa fora enquanto eu jogava água para cima. Depois que minha avó morreu a Dona Dalji que me trazia aqui, quando meu pai não proibia.

  – Você sabe como a sua avó conheceu a Dona Dalji?

  – Sei. - Olhei pra ele com as sobrancelhas erguidas esperando que o mesmo começasse a contar. - A Dona Dalji tinha 19 anos e havia acabado de fugir da África. Ela tinha uma vida miserável e o pai dela abusava tanto dela quanto de suas irmãs. Ela juntou dinheiro trabalhando como faxineira e cozinheira na casa de algumas pessoas, e comprou uma passagem para o primeiro lugar que encontrou. Ela diz que o pior arrependimento dela, foi ter pensando apenas em si mesma e ter deixado as irmãs passando por aquele sofrimento, mas ao mesmo tempo ela diz que aquela era a chance dela. E se ela nunca mais fosse ter outra igual?

  Ele pegou um punhado de pedrinhas do chão e começou a jogá-las no rio, perdido em pensamentos que eram fáceis de decifrar.

  Dor.

  Não era pena, e sim muita dor.

  Como se ele entendesse aquilo e compartilhasse de um sentimento semelhante:

  – Quando ela chegou aqui, estava perdida, com fome, com frio, cansada. Passou dias vagando pelas ruas pedindo esmola, ela estava tão perdida que já havia até começado a cogitar a ideia de se prostituir. Um dia ela estava parada na frente de um restaurante olhando com água na boca pela vidraça o prato de um cliente. O gerente saiu do estabelecimento como uma fera e começou a insulta-la, chamou a mesma de macaca e outros diversos nomes asquerosos, foi quando minha avó e meu avô saíram do restaurante e mandaram o homem parar com os comentários ofensivos se não eles iriam chamar a polícia. Na verdade foi minha avô que se preocupou, o meu avô era como o meu pai, egoísta, grosseiro, ganancioso, não ligava para o que estava acontecendo, porém ele estava tentando conquistar minha avó na época, qualquer situação para provar ser um cavalheiro era bem vinda. Minha avó levou a Dona Dalji para dentro do restaurante e deu tudo o que ela poderia comer e mais um pouco, o meu avô não queria ficar, então disse à minha avó que tinha um compromisso.

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