Dezenove

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Quando eu sai do banho, ele ainda estava no meu quarto, sentado na cama e com a cabeça baixa apoiada nas mãos. Apenas levantou a cabeça para me olhar, quando me viu aproximar dele.

- Me perdoa? Não queria ter falado aquelas coisas, você está certa.

Ele se levantou e tentou se aproximar, mas dei dois passos para trás, aumentando a nossa distância. Não queria ele perto de mim.

- A Amanda pediu para conversar comigo, ela é uma velha amiga e eu fui, mas sei que não deveria, não deveria ter te deixado sozinha e não queria que pensasse que eu tenho algo além com ela, porque eu não tenho.

Ele começou a se explicar, e eu respirei impaciente.

- Não me deve satisfações, Rodolffo. – falei ríspida.

- Não faz isso comigo. – ele voltou a andar em minha direção. – Não me faz te desejar mais para depois dizer que eu não vou poder te ter.

- Por favor, não me toque. – pedi quando ele quebrou nossa distância e tentou tocar meu rosto. - Você queria um relacionamento de fachada e você o terá, farei seu teatro, mas me mantenho firme. Não terei nada além disso com você.

- Por favor, Ju...

- Pode se retirar? Foram muitas emoções hoje e eu estou cansada, não quero mais conversar.

- Tudo bem. – ele concordou e se inclinou para me dar um beijo na testa, mas novamente me esquivei dele. – Só ia te dar um beijo.

- Não quero seus beijos. Por favor, vá embora. – pedi firme e ele assentiu antes de sair.

Assim que ele fechou a porta e me deixou sozinha, me permiti chorar. No meu intimo eu sabia que seria a coisa mais difícil do mundo ficar longe dele, mas ele precisava parar de me tratar dessa forma.

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Como prometido, ele me permitiu estudar. Conseguiu com seus contatos que eu ingressasse na faculdade mesmo o curso já tendo começado, e foi maravilhoso poder ocupar minha cabeça com outras coisas.

Mesmo não sendo o curso que eu mais queria, estava feliz de poder estudar, sempre foi um sonho fazer faculdade e eu me sentia bem naquele ambiente.

Estudava durante todo o dia e isso ajudava para que o tempo passasse mais rápido. Recebi a visita da mãe de Rodolffo algumas vezes para o almoço, ela era sempre agradável e gentil comigo. E sempre ficava curiosa para saber se meu relacionamento com o seu filho, avançaria para um noivado.

Para todos os efeitos, ainda éramos "namorados".

Eu tentava parecer animada e empolgada para ela, mas no fundo só queria que isso acabasse e eu pudesse voltar para a Paraíba. Torcia para ainda poder recuperar minha casa, mas sabia que isso seria quase impossível.

Rodolffo mudou seu comportamento durante a semana, não chegava tarde e estava em casa todos os dias para o jantar. Eu evitava falar com ele, e pelo olhar dele, eu sabia que meu tratamento de gelo o incomodava.

Continuei tendo pesadelos, e todas as vezes que eu acordava chorando, o via em pé ao lado da minha cama, mas como pedi que ele não me tocasse, ele respeitou minha vontade. Porém, ele estava sempre ali, ao meu lado, querendo me proteger. Isso me deixava ainda mais confusa.

Estava na sala, entre livros estudando uma matéria da faculdade, quando ele chegou. Mas diferente das outras vezes, ele se sentou no chão ao meu lado.

- Como está a faculdade, tem gostado do curso?

- Sim. – eu era sempre monossilábica com ele.

- Por favor, eu já entendi. Para de me tratar assim, eu quase morro quando te vejo ter pesadelos, não podendo te dar um abraço e te dizer que tudo vai ficar bem, que nada de ruim vai te acontecer. Eu quero te proteger, Juli.

- Então me deixa investigar. – voltei a pedir, mas ele negou com a cabeça.

- Me peça qualquer coisa, menos isso.

- Você não entende.

- Entendo, mas não te quero em perigo. Você está segura comigo, esquece esse assunto.

- Como eu posso esquecer? Sabendo que tem outras mulheres lá que não tiveram a mesma sorte que eu? Que são escravizadas, me machuca não poder ajudá-las.

- Confia em mim? – ele pediu, tocando a lateral do meu rosto e fazendo um carinho com o polegar em minha bochecha, pela primeira vez em semanas não repeli seu toque. – Estou dizendo que tudo vai ficar bem, só confia em mim.

- Tudo bem, Rodolffo. Eu já entendi que não quer que eu investigue, está com medo de ser envolvido nisso tudo. – me desvencilhei dele, e fechei meus livros com raiva, juntando tudo e me levantando.

- Não é isso, Ju... espera.

Não parei para ouvi-lo, subi as escadas depressa e fechei a porta do quarto, por um momento achei que ele viria atrás de mim, mas isso não aconteceu.

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