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Como a pousada era pequena demais para comportar tantos jovens, a maioria optou por alugar quartos nos hotéis próximos. Além de espaço, teriam privacidade — e nem todos estavam ali apenas para beber e rir até o amanhecer.

Depois da meia-noite, já haviam passado do ponto. Era o tipo de embriaguez em que “eu te amo” se tornava uma verdade universal, dita sem filtro e sem vergonha. Chittaphon assumiu o controle da música como se tivesse nascido para aquilo. Sabia exatamente quando acelerar os batimentos e quando desacelerar os corações. Apesar da fama de inalcançável, escolheu unir todos com uma canção lenta e romântica. Os casais foram os primeiros a se aproximar, embalados pelo ritmo suave, braços entrelaçados, testas encostadas.

A expressão “a noite é uma criança” nunca pareceu tão verdadeira. Com a pousada inteira reservada para mais de trinta estudantes, não havia o menor medo de incomodar alguém. Aquele espaço era deles até o dia seguinte. Dançaram, riram, choraram, prometeram futuros improváveis e celebraram a simples dádiva de estarem vivos. Pela primeira vez em muito tempo, o medo não tinha voz.

[…]

— Como se sente ao lembrar de tudo isso? — perguntou o entrevistador Lee, a caneta pairando sobre o bloco.

— Parece um pesadelo longo demais — Jaehyun respondeu, após alguns segundos de silêncio.

Uma grande empresa financiava um documentário sobre um dos assassinos em série mais conhecidos do país. Vinte anos haviam se passado, e novas informações surgiram. A proposta era dupla: alertar o mundo sobre a extensão da crueldade humana e, inevitavelmente, lucrar com a notoriedade construída sobre a tragédia alheia.

A história foi contada em ordem cronológica. A infância cercada de afeto, a inteligência acima da média, a aparência agradável, a vida aparentemente comum. Tudo contrastava de forma perturbadora com os primeiros sinais de violência: o prazer em ferir animais, a frieza com que observava a vida se esvair. Caçava coelhos sozinho, longe das outras crianças. Depois, levava os corpos para o armazém de casa. O pai, tentando se aproximar de um filho distante, participou daquele ritual silencioso sem compreender o abismo que ajudava a cavar.

Na escola, não era popular. Ainda assim, Yangyang descrevia sua vida como perfeita. Pais amorosos, amigos, beleza. Parte disso era real — o amor dos pais, principalmente. O choque deles, ao descobrirem os crimes, foi devastador. O pai carregaria para sempre a culpa de não ter percebido antes, de ter normalizado o que jamais deveria ser normal.

Nunca se soube ao certo qual foi o gatilho que deu início à sequência de crimes. Preso, Yangyang distorcia a própria história, omitindo, romantizando, mentindo. Por isso, o documentário deu voz a quem restara para contar a verdade: investigadores, sobreviventes, peritos.

Na Yejun, agora aposentado, havia liderado a investigação. Falou com precisão e pesar. Muito do que disse precisou ser cortado — não por falta de relevância, mas por humanidade. Ainda assim, o entrevistador anotou cada palavra, mesmo sabendo que algumas jamais seriam exibidas.

A primeira vítima era um jovem cheio de sonhos, morto após uma festa universitária. O corpo foi encontrado do lado de fora de um bar, abandonado como se não tivesse valor algum. A morte veio rápida, causada por ferimentos profundos que levaram à perda excessiva de sangue. Quase não havia vestígios — o suor, a confusão, a pressa em apagar rastros.

No segundo crime, a violência já se mostrava mais elaborada, mais cruel. A vítima foi encontrada em um beco, o corpo marcado por sinais claros de dominação e humilhação. Não havia pressa ali. Havia intenção. Havia prazer no controle.

A cada novo assassinato, o padrão se tornava mais sombrio. A violência escalava, os corpos apresentavam sinais de agressões repetidas, a dignidade das vítimas era completamente ignorada. Em determinado ponto, a raiva parecia transbordar. Uma das vítimas teve o pescoço quebrado pela força excessiva, como se o ódio tivesse tomado o lugar da razão.

Em uma das cenas mais devastadoras, três vítimas foram encontradas no mesmo quarto. Uma delas ainda respirava. Sobreviveu, mas perdeu quase tudo o que era. Passou anos em coma, acordou sem memórias, com o corpo marcado para sempre. A vida seguiu, mas jamais voltou a ser a mesma.

Houve uma cena tão brutal que sequer foi descrita nos relatórios finais. Algumas imagens não precisam ser compartilhadas para existirem.

Nos últimos crimes, Yangyang agiu de forma errática. A investigação se aproximava, e, mesmo sem demonstrar, o medo já o corroía. Cometeu erros, deixou rastros. Foi capturado não porque parou, mas porque já não conseguia pensar com clareza.

O documentário terminou com silêncio.

Silêncio para as vítimas.
Silêncio para os que sobreviveram.
Silêncio para os que ficaram.

Enquanto as imagens finais mostravam o mar calmo daquela mesma praia, a mensagem era clara: o mal pode deixar marcas profundas, mas não define o fim da história. Para alguns, o encerramento veio em forma de justiça. Para outros, em forma de amor, amizade e recomeço.

E, em algum lugar, jovens dançavam, riam e prometiam futuros — provando que, apesar de tudo, a vida insistia em continuar.


Nota da autora:
Sinto muito pelas cenas horríveis descritas nessa história, quis fazer algo um pouco diferente do que escrevo normalmente.

Yangyang foi inspirado em vários serial killers dos EUA (70% Ted Bundy, 10% Ed Kemper, 10% Jack, o Estripador e 10% BTK).

Como estudante de Criminologia e curiosa sobre os cérebros desses monstros, quis colocar um pouco do que já estudei em prática, foi o que me veio à mente ao escrever essas abominações (crimes).

Torço pra não ter traumatizado ninguém, apesar de ter amenizado muitas coisas nessa revisão.
Obrigada por lerem.

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora