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- Jaemin... Jaemin! - Renjun o chamou outra vez. Segurou o rosto do mais novo com cuidado, obrigando-o a encará-lo, e secou as lágrimas que insistiam em cair. - Fala com a gente.

- Eu não consigo... - a voz saiu baixa, trêmula, quase quebrada. - O Johnny... ele era meu amigo.

- Eu sei. - Renjun o puxou para um abraço apertado, como se pudesse protegê-lo do mundo inteiro. Jeno observava a cena sem saber exatamente o que fazer, sentindo-se pequeno diante de tanta dor. - Ele vai pagar pelo que fez. Não vai ficar impune.

- Como ele pôde fazer isso? - Jaemin murmurou, a pergunta mais parecendo um lamento do que uma busca por resposta.

- Não adianta tentar entender esse tipo de gente - Renjun disse em voz baixa, enquanto fazia carinho nas costas largas e tensas do mais novo. - O cérebro deles funciona diferente do nosso.

- Ele tem razão, Jaemin - Jeno se aproximou, colocando uma mão firme em seu ombro.

Antes que Jaemin pudesse responder, o toque do celular cortou o silêncio pesado. Uma música aleatória ecoou pelo ambiente, e o nome "Na Yejun" apareceu na tela.

- Eu não quero falar com ele agora - disse, desviando o olhar, entregando o celular a Jeno.

- Posso atender? - perguntou, hesitante. Recebeu apenas um aceno em resposta.

Ligação on.

- Alô?

- Jaemin?
A voz do outro lado soou atenta.
- Sua voz parece diferente.

- O Jaemin saiu e deixou o celular comigo. Quer que eu passe algum recado?

- Ah... certo. Diga a ele que eu liguei. Preciso conversar com ele. É um pouco urgente.

- Tudo bem, pode deixar.

- Qual é o seu nome, jovem?

- Lee Jeno.

- Por que ele deixou o celular com você?

- Nós estamos dividindo uma casa. O aluguel é caro aqui.

- Entendo... vocês são estudantes. Faz sentido.
Houve uma breve pausa antes de ele completar, num tom inesperadamente sincero:
- Obrigado por ser amigo do meu filho.

- De nada.

- Tchau.

- Tchau.

Ligação off.

- O que ele queria? - Jaemin perguntou, ainda sem coragem de encarar ninguém.

- Disse que precisa falar urgentemente com você... e me agradeceu por ser seu amigo - Jeno resumiu.

- Não parece o meu pai.

- Mas era a voz dele.

- Eu não consigo lidar com ele agora.

- Tudo bem - Renjun respondeu com suavidade, afastando-se um pouco do abraço. - Vocês conversam outro dia. Mas... deveríamos fazer alguma coisa.

- Tipo o quê?

- Me deem um tempo pra pensar - disse, já pegando o celular. - Enquanto isso, vamos comer alguma coisa.

- Quer tomar banho? - Jeno sugeriu, oferecendo seu sorriso mais gentil. - Sempre me ajuda a relaxar.

- É uma boa ideia - Jaemin respondeu, forçando um pequeno sorriso triste antes de caminhar até o banheiro.

Enquanto a água quente escorria por seu corpo, tentando levar embora ao menos um pouco de peso no peito, a comida chegou. Renjun, sentado à mesa, pensava em qualquer coisa que pudesse afastar a mente do caos, da violência, do nome de Yangyang, ecoando como um fantasma.

- Praia - disse de repente, animando-se. - Não existe nada mais relaxante do que o vento e o som do mar.

- E nós sem camisa - Jeno brincou, arrancando uma risada inesperada.

- Foi você quem disse - Renjun deu de ombros, fingindo naturalidade.

- Eu gostei da ideia - Jaemin apareceu na sala usando apenas uma toalha na cintura, os cabelos pretos ainda molhados, pingando água. Apesar do sorriso fraco, havia ali um resquício de leveza.

- Vem comer enquanto está quente - Renjun disse.

- Preciso me vestir...

- Não tenha pressa - Jeno respondeu, num tom brincalhão. Foi uma das poucas vezes que viu Jaemin corar de verdade.

Depois da refeição, com o estômago cheio e o coração um pouco mais calmo, os três se prepararam para ir à praia. Jaemin relutou em deixar sua Lucille na garagem, mas não tinha como levar os dois na moto. Jeno conseguiu um carro emprestado da família com facilidade; ser o filho exemplar tinha suas vantagens.

A viagem foi curta. Seul ficava perto o suficiente para que o cheiro do mar já parecesse mudar o ar. Alugaram cadeiras, uma mesa e um grande guarda-sol. Antes mesmo de se sentarem, Jeno puxou os dois em direção à água.

- Vamos logo! - disse, sorrindo como se aquele fosse um dia comum.

- Nem esperou a gente tirar a camisa - Renjun riu.

- Depois tira - Jeno respondeu.

Até Jaemin sentiu o peito abrir um pouco, como se, por alguns instantes, fosse possível respirar sem dor.

[...]

Enquanto isso, a delegacia parecia um campo de batalha silencioso. Preparar o julgamento exigia uma força quase sobre-humana: laudos de DNA confirmando identidades, depoimentos sendo transcritos, relatórios intermináveis. Tudo precisava estar perfeito.

Mesmo assim, a mente de Na Yejun estava longe dali.

- Chefe? - Yejin o chamou, quebrando o silêncio. - Faz tempo que você está olhando para o nada com essa cara fechada.

- Eu não consigo parar de pensar no meu filho - ele admitiu, soltando um suspiro pesado. - Em tudo o que eu preciso dizer... e em tudo o que eu falhei em consertar.

- Acho que você deveria descansar. Essas olheiras não são normais - ela riu de leve. - Há quanto tempo está aqui?

- Sei lá... três dias?

- O RH disse que já são cinco - respondeu, arqueando a sobrancelha. - E que você está prestes a colocar a polícia em problemas.

- Eles exageram.

- Vá pra casa. Descanse. Fale com o seu filho.

- Como é?

- Você está oficialmente afastado por três dias. Ordem direta. Antes que leve uma sanção disciplinar.

- Incrível - ele resmungou. - Sou o chefe da investigação e ainda assim continuo levando ordens.

- A vida é cruel - Yejin riu. - Agora vá embora.

Yejun recolheu suas coisas e trancou a sala. Só percebeu o quanto estava exausto quando se sentou no carro. O corpo inteiro parecia protestar, cada músculo doendo como se estivesse envelhecido de repente.

Enquanto dirigia, o pensamento voltou inevitavelmente para Jaemin. Ele nem sabia onde o filho morava, com quem dividia a casa, como realmente estava. Sentiu o peito apertar.

Talvez tenha falhado demais. Talvez fosse tarde demais.

Jaemin estava crescendo bem, forte e inteligente. As notas na faculdade eram ótimas. Um jovem admirável, apesar de tudo.

A pergunta que mais doía era simples e cruel: será que ele seria um homem melhor sem o pai?

change | norenminOnde histórias criam vida. Descubra agora