O dia seguinte foi quente e o que veio após ele também, homens e mulheres da alta classe andavam pelas ruas se abanando com seus leques espalhafatosos no intuito de mitigar o calor, aqueles de classe mais baixa se dirigiam ao riacho próximo com bacias sobre a cabeça ou apoiadas na cintura, estavam indo lavar as roupas e lençóis. Frieda se afastou dos irmãos no segundo dia após a finalização do teste, ela seguiu as lavadeiras e então subiu riacho acima, o som das pessoas foi sendo deixado para trás e o da água corrente preencheu o espaço, ao chegar em uma queda d'água ela parou.
O ambiente em volta da água estava mais fresco, o líquido se chocava contra as rochas e fazia respingar suas gotículas, beijando molhado tudo à sua volta. Frieda suspirou deixando sair sua ansiedade e agonia, lutando para que as vozes se silenciassem, ela soltou os cabelos, antes presos em um rabo de cavalo, deixando-os sacudir e dançar diante daquela doce melodia da natureza. Relaxou forçosamente os ombros e se sentou no chão com as pernas cruzadas para meditar. Ainda que a água fosse agradavelmente barulhenta, de fundo se ouvia o farfalhar das árvores, com os olhos fechados, a garota sentia melhor o toque do vento em sua pele, o ar preenchia seus pulmões com suavidade e os seus cabelos ondulavam ao léu. Seu núcleo de heilig pulsou e se fortaleceu em resposta a meditação, Frieda então se ergueu, tirou as roupas e sapatos, caminhou para dentro da água sem hesitação, foi cada vez mais para o fundo e então submergiu, ficou assim por longos minutos, abraçada aos joelhos em posição fetal, as vozes em sua mente se acalmaram, foram abafadas pela água e a garota desejou ficar assim pra sempre. Quando já não podia viver sem o ar, emergiu das águas tranquilamente, o fez apenas para se deparar com uma figura sentada em uma grande pedra na margem.
– O que faz aqui? – A garota perguntou, sua natureza aparentemente estóica se fazia presente.
O rapaz a olhava nos olhos, sua expressão era semelhante a de Frieda, mas repentinamente mudou de forma drástica, lá estava sua amabilidade sinica.
– Na verdade esse lugar é meu. – Respondeu ele. – Bom... na verdade não é meu, uma vez que não paguei por ele. – Se corrigiu. – Contudo é um lugar ao qual costumeiramente venho para espairecer.
Frieda o analisou, não havia mentiras no que Heiko falou.
– Eu vi as roupas na margem, mas estou aqui a tanto tempo e ninguém apareceu, imaginei que tivesse ido embora e deixado para trás as roupas. – Comentou ele. – Me diverti pensando que situação teria levado alguém a fazer isso. – Sorriu ele. – Além disso, as roupas não denunciavam o gênero de seu dono, passei o tempo tentando adivinhar, os sapatos pequenos me diziam que era uma mulher, mas também poderia ser um rapaz jovem.
Frieda não respondeu a tentativa de Heiko em iniciar uma conversa, ela seguia com a maior parte do corpo imersa na água, porém após observá-lo por um tempo, simplesmente saiu de onde estava e caminhou até suas roupas sem pudor. Heiko não a olhou com malícia.
– Por que vem aqui? – A garota indagou, isso surpreendeu Heiko, ele já havia concluído que Frieda não tinha intenção de conversar.
– Porque é fresco e úmido, os respingos de água me lembram da chuva. – Respondeu a ele. – Essas coisas me fazem lembrar de casa, venho aqui para reafirmar minhas convicções e meus motivos para me esforçar tanto.
A garota vestiu a calça e a blusa, então se virou e olhou para a água, ela compreendia o que ele estava dizendo.
– Você é de Wolkenbruch? – Indagou sem tirar os olhos da água.
Heiko a mediu com o olhar, seus olhos agora denunciavam saber de coisas que ele não tinha intenção de contar.
– Sim. – Ele respondeu. – Nasci em sua cidade mais miserável.
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Wanderfalke: A batalha contra os Haidu.
FantasyQuanto vale a liberdade? A resposta é: depende. Para ganhá-la vale uma moeda de ouro, mas para perdê-la vale uma moeda de prata. Os mais éticos diriam que é absurdo, que liberdade não tem preço, ou ainda, que liberdade é direito de todos, entretant...
