Capítulo 24 : Réquiem da Meia Noite

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Mário Torres

Barão me convidou para ir na casa dele, eu sequer sabia que o Barão morava na Rocinha. Muita gente achava que ele nem morava mais aqui pois nem sabiam onde era a casa dele. Depois que eu aceitei o convite dele nós continuamos nossas conversas normais pelo whatsapp, ele disse que se eu quisesse poderia ir no domingo na casa dele.

"Fica tranquilo, a gente não vai fazer nada que vc não queira"ele disse na mensagem.

Eu estava tão frenético que queria ir no dia seguinte mesmo, no sábado, mas o Barão disse que tinha uns "corres" pra fazer no dia seguinte. O beijo que o Barão me deu despertou algo em mim que somente eu tinha sentido na adolescência, um desejo que eu achei que era apenas uma confusão passageira por eu ter deixado Recife e estar inserido em um ambiente totalmente novo.

Quando meus pais se separaram foi uma coisa que me pegou totalmente de surpresa, eles viviam brigando toda hora mas sempre faziam as pazes depois. Um dia simplesmente minha mãe chegou e disse que íamos embora, eu fiquei sem entender. Ela disse que íamos voltar para o Rio de Janeiro.

"Mas a gente é daqui, mainha!" eu dizia pra ela.

Naquela época eu tinha o sotaque igual ao do Júlio mas que infelizmente se perdeu. Eu estava com 15 anos e era zoado todos os dias na escola que fui no Rio,eu estudava em uma escola de periferia e as humilhações eram diárias, adolescentes podem ser extremamente cruéis quando querem e eles sabem exatamente que estão sendo cruéis.

Foi naquela escola que eu conheci ele...Renato.

Nossas mães tinham sido amigas na infância, antes da minha mãe ser mandada para morar em Recife. Naquela época nós morávamos no apartamento da minha avó, ela estava muito doente e quando minha mãe e a dona Cida, mãe do Renato, se reencontraram a minha mãe contou toda a nossa situação para ela.

Dona Cida era uma mulher abençoada por Deus, possuidora de um coração gentil e maravilhosa. Já o Renato era um rapazinho evangélico e extremamente educado, tanto que muitos nem diziam que ele morava em uma favela de tão educado e inteligente que ele era.

Nossa amizade foi crescendo, ele era 1 ano mais velho do que eu e nos tornamos muito amigos. Mas com o tempo eu percebi que comecei a sentir coisas diferentes pelo Renato, eu fingia que não mas meu coração palpitava sempre que eu via ele.

Nunca disse nada para ele. Renato era evangélico, um rapaz de igreja e seus pais eram evangélicos também. Nunca que eu teria chance alguma e eu sequer sabia o que estava sentindo.

Mas o Renato mudou completamente mais ou menos 2 anos depois de nos conhecermos. Ele tinha acabado de completar 18 anos, estava se preparando para o vestibular quando uma tragédia aconteceu na família dele.

Seu pai e sua irmã morreram tragicamente.

Depois disso o Renato mudou completamente. Nesse meio tempo minha avó morreu e eu e minha mãe perdemos tudo, minha mãe caiu em depressão e fomos acolhidos pela Cida que nos ajudou a alugar uma casa na Rocinha. Eu tive que deixar a escola e começar a trabalhar para sustentar eu e minha mãe.

Dona Cida desabafava comigo quase todos os dias sobre como o Renato havia perdido completamente sua fé em Deus e se desviado dos caminhos do Senhor.

Renato havia entrado no tráfico. Entrou para a facção do Metralha, o dono da Rocinha na época.

Foi nessa época que o Renato conheceu e se tornou amigo de Israel, o Barão.

E 3 anos depois ele e o Barão mataram o Metralha e tomaram a Rocinha para eles.

O Dono do Morro : Eu Odeio Amar VocêHistórias para pegar e não largar. Descubra agora