Eu já disse que não sou come e fala, kiss and teller, como diriam os ingleses no maior dos sufrágios de sua língua, então estarei tentando poupar a memória da reputação da coordenadora do Colégio Galileu Galilei, orgulho e tradução, suor e lágrimas.
O que posso dizer é que aquela cena me trouxe de volta a vida, com um respeito maior à figura dela, em si. A gente fez algo próximo do amor que não era muito longe do sexo. Eu diria que foi uma transa. Gosto do conceito tropicalista da palavra transa: que é basicamente, encharcada no que há de melhor do envolvimento. Transa é troca, troca pura, e a gente teve muita troca — teve envolvimento pra mais de mil.
Envolvimento, da cabeça aos pés. Cintura, cabelo, dentes e língua. Coisa bonita. Eu pagaria pra ver o que a gente fez junto naquela cama de motel barata, porque foi bonito e honesto, de verdade. Perto da língua, fora da mente, e agora, longe do corpo.
Depois daquela cena digna de Pigmalião, seguido por uma transa movida pela culpa cristã, eu entendi que ela precisava de um tempo pra ela e eu precisava desafogar das memórias sexuais que eu tinha dela, pelo meu bem pessoal. Precisava dar uma desafogada dessa sensação esquisita que vinha crescendo no meu peito que eu bem sabia o que podia ser.
Respirava fundo toda vez que me batia com aquele cabelo moreno e aqueles vestidos longos no colégio centenário.
Outra coisa que era mania dela, uma mania das feias, era sempre se sentar do meu lado quando tinha algum bate lata daquele colégio. Ela não parecia muito amiga da diretora ou de qualquer outra professora, então tinha me pegado (literalmente) pra Cristo. Evita, mas vive colada, e hoje não era diferente.
Eu tava bem longe, no mundo da lua, em mais uma daquelas palestras de educação sexual que adolescente movido a feromônio é obrigado a ver por ordem do governo. Na minha época, essas aulas eram só pra falar de HIV e distribuir preservativo, e já dava um fuzuê danado nas reuniões de pais e mestres. Essa de agora era quase importada: debateu ISTs, sexualidade, prática, etc e tal. Teve alguns momentos que eu até me manifestei e prestei atenção.
Ela olhava de bico. Mulher cheirosa da porra, incendiou aquela ala da biblioteca que só uma kamikaze daquela forma poderia fazer. Ia me explodir, e ia explodir ela a qualquer momento se mais um adolescente fizesse uma piadinha de duplo sentido ali.
— Nerão, você gostaria de me ajudar aqui no nosso exemplo? — Danilo, professor de biologia e palestrante da rodada me tirou do amarramento da cobra que tava toda sonsa, silenciosa do meu lado.
— Lá ele. — falei, antes que os pivetes tirassem uma com minha cara. Senti o olho fervendo da morena me olhando de canto, e assim... uma vez cafajeste, sempre cafajeste. — E precisa mesmo?
— Pô, Nerão, vai lá, Zé! — Cadu, o cabra mais atentado do terceiro ano pediu, gargalhando. Era tempo de um showzinho? Talvez fosse.
— Quer saber de uma Dan? Eu vou. — E puxei um coro de Nerão, Nerão! em meio à multidão. Era um sucesso de 30 pontos de audiência. Até atingir a crítica, é claro.
Senti a unha do meu bíceps na hora: ela me puxou pelo braço, e fez uma graça no meio de geral. Eu tive flashbacks de guerra, porque sou fraquinho em mulher bonita. — Olha lá o que 'ocê vai dizer lá na frente, entojo.
— Oxe, tá aperreada? — queria que ela me sangrasse naquele puxão. Que fizesse marca. — Tenha calma, e me solte.
Meia dúzia de adolescente fez arruaça, mas eu que sou boa praça entre os fellas já tratei de fazê-los calar a boca, subindo até o palco que prepararam para a palestra de educação sexual que calhou de ser numa época bem boa: pré-carnaval.. Achei propício, sério mesmo. Boa demais da conta.
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Imponderável
FanfictionMapas, clássicos, classes e conversas. Quando histórias tão diferentes se cruzam para serem escritas, o imponderável acontece. Uma coordenadora de um colégio tradicional em Belo Horizonte tendo que aprender a driblar as investidas do seu novo profes...
