Cinderela Baiana

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Rapaz, os quinze dias na Bahia foram coisa de cinema.  Coisa de filme da sessão da tarde.


Pense num tempo bom da porra, cheio de praia, risada e amor bom. Mas a gente sabe que tudo que é bom, uma hora acaba, como toda boa história de romance baiano. A verdade é que ver meu presente e meu passado, confusos na mesma linha do tempo, pintados pelo mesmo sol, tinha um afrodisíaco pra lá de diferente.


A verdade é que era como se... Era como se o amor doesse em paz. Vinicius tinha razão: amor que é amor não deixa de doer, e isso não é ruim — é sinal que está vivo.


Eu me despedi da terrinha com o coração apertado dessa vez: era a última vez que eu pisava em Salvador como dono da minha própria vida — agora sou delas.


Não que eu já não fosse de uma, e não é como se essa não tivesse me tomado numa proporção que eu esqueci de como era a vida sem ela, mas quando o avião pousou em Belo Horizonte naquela madrugada fria, eu já sentia o peso da realidade, dessa nova vida que a gente ia ter.


A Bahia tinha deixado um gostinho doce de juventude na boca, mas BH vinha com aquela pitada de responsabilidade e vida real, que apesar de ser um sonho, não deixava de ser o sério do sério da vida. De ver a minha mulher, e querer mudar todos os cenários que não passassem a seriedade que ela merecia.


Chegando no aeroporto, quatro da matina, eu segurei firme na mão de Giovanna, gelada, coitada. O nervosismo dela dava pra ver era de longe. Chegava a ser engraçado que a aflição bateu nos dois de primeira, assim, mas de formas diferentes.


Ela suspirou fundo, tentando disfarçar, mas eu conhecia bem a peça. Coisa engraçada da porra era ver aquela mineirinha marrenta e cheia de coragem pra tudo se encolhendo de medo de contar pra dona Lilian que ela ia ser avó. Eu, sempre abusado, não perdi a chance de brincar com ela.


— Ô nega, tá tremendo que nem vara verde por quê, hein? — soltei, segurando um risinho.


Nó, cê não me irrita...


— Tu é de maior, vacinada, dona do seu nariz... Bora lá, mulher, dona Lilian né bicho-papão não! — respondi, pegando a chave do meu carro da mão dela e pondo nossas malas no fundo do carro.


Ela me olhou daquele jeito que só ela sabe, os olhos quase fuzilando, mas com um brilho que me deixava rindo à toa. Peste bonita.


— Ah, 'lexandre, num venha com essa tua marra de despreocupado com o mundo, não! — retrucou, a voz cheia de impaciência, mas com aquele sotaque mineiro que eu achava uma delícia. Parou em frente a porta do carro, e começou a reclamar de mim... voltamos, BH, voltamos com tudo.


— Será que ela acha que tu é virgem? – tirei uma com a cara dela.


— Eu já falei pra ocê não me estressar, mas é missão impossível né?


— Uai, quem tem medo de cagar não come. A quantidade de namorada que a gente deu nos últimos meses só podia dar nisso, ué. — falei, tentando deixar ela mais confortável com a situação.


— Ah, então vai lá você contar pra minha mãe que vai ser vó antes mesmo de ver a gente casado, vai, 'lêxandre. Quero ver a tua coragem nessa hora! Ocê acha que é fácil é, vei?


Eu ri, não dava pra segurar. Ela tava uma graça, toda estressada e revirando os olhos como se isso fosse me fazer parar de provocá-la.


Mas a verdade era que eu também tava sentindo o peso daquela notícia. Só que homem disfarça melhor, né?


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