Capítulo 15

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Dulce María

Eu não havia escrito os meus votos de casamento.

Enquanto escutava as declarações vindas de Christopher, chocadas com o seu poder sobre palavras românticas - mesmo que tudo isso não passe de uma grande mentira, não conseguia parar de pensar que não tinha nada para dizer. Disse para Anahí e Maite que havia escrito. Que havia juntado toda minha força de vontade e feito algo aceitável – o que não passava de uma enganação para elas pararem de encher o meu saco. Todas as vezes em que olhava para aquele papel vazio, não conseguia escrever nada.

Nadinha de nada! Nem ao menos uma sílaba ou vogal.

Odeio admitir que, pela primeira vez na nossa história, Christopher se saiu melhor do que eu.

Seu discurso foi inusitado; a forma como ele começou dizendo que me odeia pegou a todos de surpresa, inclusive a mim. Mas não posso negar que suas palavras foram... bonitas. Românticas. Como se, de fato, fôssemos realmente um casal de noivos apaixonados, prestes a tomarem o próximo passo rumo à eternidade do amor.

Que grande besteira.

Deus, como ele consegue? Como ele consegue mentir tanto? Como Christopher Alexander teve a capacidade de dizer que me ama, ainda que não com essas exatas palavras, na frente de tantas pessoas e não gaguejar?

Ainda não abri minha boca e sinto minhas pernas tremerem.

O que eu vou fazer? Ou melhor: o que vou dizer? Não faço a menor ideia.

De soslaio, olho para Maite e Anahí.

Ani está sorrindo, fazendo joinhas discretas com o dedo, indicando que está tudo certo.

Já Mai, me olha como se soubesse que estou em uma emboscada.

E eu sei que ela sabe.

O único problema, é que não tenho quem me tirar dessa.

— Agora, chegou o momento da noiva. — Todos os olhos se voltam para mim com expectativa. Engulo em seco. — Dulce María, os seus votos.

Ah, merda. É agora.

— Eu... é... eu...

— Não tenha pressa, querida. Entendemos o seu nervosismo.

— Fique tranquila, amor. — O sarcasmo na voz de Christopher me faz querer socá-lo bem no rosto. — Temos todo tempo do mundo.

Esse desgraçado...

— A propósito: eu também te odeio. — A frase sai do automático da minha boca. Os convidados não se chocam, riem. E ele também, pois entende minha referência. — Não foram as primeiras palavras que eu te disse, mas foi o que te respondi naquele dia. Desde quando coloquei meus olhos em você, Alex, eu soube que seria um problema. Afinal, estava lidando com um astro do rock metido à besta, mesquinho, mimado, convencido, cara de pau...

Maite me faz um breve sinal para pegar mais leve com as palavras. Tudo bem, tudo bem. Respiro fundo e continuo a dizer:

— ... que, mesmo sendo o meu maior desafio, acabou se tornando a minha maior paixão. — O olhar comovido dos convidados me faz querer chorar de raiva por essas mentiras. Vamos lá, Dulce. Seja forte. — Eu poderia fazer uma lista numerada de motivos que me levaram a te odiar, mas se fosse começar pelo principal que fez com que eu me apaixonasse por você, seria a sua voz. O Alex ele... ele tem um dom. Ele sabe cantar, não apenas canta. Nessa indústria, existem muitas pessoas que só fazem isso pelo dinheiro. Pela fama, pela bajulação, pelos milhares de holofotes e por todos os benefícios que essa vida luxuosa tende a oferecer. Mas com ele, nunca foi sobre a fama, dinheiro, festas. Era por um bem maior. Infelizmente as pessoas não têm o privilégio de conhecer esse lado dele, mas eu conheci. E é lindo. O mais bonito de se ver.

O SOM DO IMPROVÁVELOnde histórias criam vida. Descubra agora