Capítulo 36

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Dulce María

Meu apartamento em Detroit é deprimente.

Quer dizer, não é como se eu estivesse fazendo questão de torná-lo um lugar mais aconchegante.

Desde quando saí da Flórida há cerca de algumas semanas, as quais também não fiz questão de contar a dedo, devo ter me levantado para passar uma vassoura por aqui umas três vezes - e olhe lá.

Meu quarto está com pilhas e mais pilhas de caixas de pizza, latas de refrigerantes, pacotes de lanche e muitas outras embalagens de fast food.

Na cozinha, uma pilha de louças sujas me aguarda. Ao menos, faço questão de manter minhas roupas limpas. Posso estar me sentindo uma merda, mas odeio me sentir fedida.

O teto do quarto virou meu novo melhor amigo. Passo horas incontáveis deitada, olhando para ele, ouvindo música vez ou outra. Só saio daqui para colocar o lixo para fora.

Minha vizinha, Emerie, me mandou mensagem perguntando se está tudo bem.

Se está tudo bem.

Pensei em responder que não, não está.

Que todos os meus ossos estão envoltos em depressão e crises de ansiedade. Que não há um dia sequer em que eu não questione minha origem.

Quem eu sou? Quem são meus pais? Quem foi minha mãe? Por que minha vida é tão complicada?

Penso também em dizer para Emerie que meu coração está partido em mil pedaços. Cem mil.

Que o único homem que ousei amar, que ousei confiar e me entregar de uma maneira que jamais pensei que fosse ser capaz, havia traído minha confiança.

Queria falar para minha vizinha que não há um dia sequer em que eu não pense nele. No seu cheiro, no seu gosto; no som da sua gargalhada ao ouvir minhas piadas bobas; dos beijos serenos que ele depositava no meu pescoço quando dormíamos de conchinha; em todas as incontáveis vezes que me perdi nas íris dos seus olhos, desejando que elas olhassem para mim daquele jeito até o dia em que eu morresse.

Em contrapartida, queria falar que desejo que ele queime no fogo do inferno, com o cajado do capeta enfiado dentro do rabo.

Mas não digo nada disso. Primeiro, porque não temos intimidade; segundo, porque ela se preocuparia demais; e terceiro, porque não quero falar desse assunto.

Sendo assim, apenas digitei que está tudo bem. Que ando meio preguiçosa, querendo aproveitar as férias, por isso não saio muito de casa.

Emerie digitou uma carinha feliz.

Fiquei com inveja da carinha. Inveja de um emoji. Porque ele não tinha sentimentos. Os dois pontos e parênteses expressavam algo que eu senti por muito tempo - felicidade. Meses atrás, eu era esses dois pontos e parênteses.

Continuo sendo eles. Ao contrário.

Tenho muitas perguntas para poucas respostas. E nem sei se quero sabê-las.

Meu celular passava mais tempo no modo avião, sem internet, do que ligado com tudo funcionando. Christopher e Scott me lotavam de ligações e mensagens sempre que tinham uma oportunidade, enquanto a última coisa que eu queria era ouvir a voz dos desgraçados que me deixaram assim.

Perdida e desolada.

Scott parou de tentar há alguns dias. Ele deixou textos e mais textos em todos os meios de comunicação possíveis, principalmente no meu e-mail. Fiquei grata por ele ter parado. E triste por saber que meu pai desistia tão fácil.

O SOM DO IMPROVÁVELOnde histórias criam vida. Descubra agora