Capítulo 35

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Christopher Alexander

— Eu preciso te mostrar uma coisa.

Scott disse logo quando adentrou ao meu “quarto do noivo”, mais ou menos uma hora antes da cerimônia começar. Estava deitado na cama, mexendo no celular, desejando estar fazendo qualquer outra coisa que não fosse estar ali, prestes a me casar com a mulher que eu mais odiava e amaldiçoava no mundo.

— O que é? — perguntei, sentando na cama. — Se for uma foto da Dulce toda produzida, tô fora. Não quero ver a cara dela até ser necessário.

Ele riu, meneando a cabeça em negação.

— Não, é outra coisa. Veja só.

O empresário me entregou uma foto. Franzi o cenho, sem entender o significado.

Na imagem, havia um casal. Não demorei mais que alguns segundos para o reconhecer uns vinte anos mais novo, mas ainda era o Scott. Ele estava ao lado de uma mulher, olhos castanhos escuros e cabelos lisos. Ela segura em seus braços um bebê minúsculo e rechonchudo. Não consigo conter meu sorriso ao observar a criança, que dorme nos braços da provável mãe, tão confortável em sua roupinha e laços rosas. É uma menina adorável.

— Quem são essas pessoas? Tirando você uns bons anos mais jovem. O tempo te fez um mau danado, hein?

— Cuida da sua vida — rebateu, soltando um riso nasalado. — Essa é Blanca, minha falecida esposa.

Ah, sei. Blanca. Numa de nossas bebedeiras para comemorar os sucessos da banda, Scott acabou comentando um pouco sobre ela. Morreu de câncer, pelo que me lembro. O que é uma merda, já que nessa foto eles eram bem jovens. Entre dezoito e vinte anos.

— Entendi. Sinto muito.

— Obrigado, mas esse não é o X da questão. Está vendo essa garotinha? — ele apontou para o bebê com a fotografia ainda nas minhas mãos.

— Uhum, sei.

— É a Dulce.

Uma gargalhada exagerada saiu da minha boca sem que eu percebesse. Porra, era uma piada muito engraçada e um tanto quanto de mal gosto para o momento. Pensei que ele estivesse me zoando. Que estava testando meus limites por algum motivo, ou só queria tirar uma com a minha cara. Afinal, que diabos Dulce estaria fazendo no colo da ex-esposa do nosso empresário? Aquilo não fazia o menor sentido.

— Caramba, essa foi boa — falei após recuperar o fôlego, soltando algumas risadas por ter ouvido tamanho absurdo. — Muito boa. Eu não tô bêbado nem drogado, tá legal? Não precisa testar minha sanidade. Vou fazer essa merda de casamento acontecer.

Quando ergui o meu olhar, notei que ele estava sério. Mais sério que o de costume. Scott engoliu em seco, travando o maxilar. Ele continuava olhando para a foto, parecendo estar carregado de remorso e culpa.

Não, não. Aquilo não podia ser verdade.

— É sério, Lendger — o chamei pelo seu sobrenome para mostrar que eu também não estava para brincadeiras. — Não estou me metendo em encrencas muito menos tabloides. Pode confiar em mim.

— Eu confio. E é por esse exato motivo que estou te casando com a minha filha.

— “Casando com a minha filha” — fiz aspas nos dedos, ainda descrente. — Pare de brincar com essas coisas! Dulce é órfã ou sei lá, algo do tipo. Não presto muita atenção no que sai da boca dela.

Em um dos encontros que tivemos com a banda, lembro dela mencionar para Christian que havia crescido sem os pais. Como falei, estava pouco me fodendo para o que ela dizia, então não dei muita bola.

O SOM DO IMPROVÁVELOnde histórias criam vida. Descubra agora