Capítulo 57

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Todos ao redor estavam em silêncio. O grande salão, que minutos antes pulsava em tensão e caos, agora estava mergulhado numa aura sagrada de emoção. Guerreiros, damas, conselheiros... ninguém ousava interromper o momento.

Afinal, não era todo dia que se via o rei e a rainha despidos das armaduras do poder e cobertos apenas pela força crua do amor.

Delcia soluçava baixinho nos braços de Leny, como se o som do mundo já não importasse mais. Ela apertava-o como se temesse que ele sumisse, como se pudesse compensar em segundos todos os anos de distância emocional. E ele, silencioso, só a acolhia, inteiro, presente, com o olhar firme mas carregado de ternura.

"Mãe..."

A voz hesitante de Alec cortou o ar com cuidado, como quem toca uma corda delicada. O tom era respeitoso, quase tímido, como se ele próprio não soubesse se devia interromper.

Delcia afastou-se levemente do peito do marido, enxugando os olhos ainda marejados. Quando se virou para a entrada do salão, seu coração quase parou.

Ali, diante dela, estavam todos os seus guerreiros. Filas e mais filas. Todos de joelhos, com as cabeças abaixadas, punhos fechados sobre o peito, em posição de cavaleiro. E à frente deles, também, estavam Alec, seu filho, o novo rei, e sua esposa, a sua nora com os olhos igualmente marejados.

Ela mal conseguia acreditar no que via. Sim já houve momentos assim, mas diferente dos demais, ela sentia o reconhecimento, consideração e amor. O que difere muito de antes que as pessoas faziam apenas pela consideração ou por não querer irritar o rei Leny.

Foi Leny quem se levantou primeiro, com a elegância cansada de um rei veterano. Estendeu a mão para sua esposa, que aceitou com delicadeza. Quando ela ficou de pé, os olhos de todos se voltaram para ela, não com medo, não com expectativa, mas com reverência. Com gratidão.

Alec ergueu os olhos para os dela, emocionado, e com a voz firme, disse:

— Vossa Alteza... Receba nossos mais profundos agradecimentos. A senhora salvou nossas vidas.

Delcia sentiu um nó na garganta, mas o disfarçou com um sorriso suave e um brilho nos olhos.

— Nem por isso... sai daí, menino. Você é o rei agora, não devia ser eu aí? - disse ela, tentando disfarçar a emoção com uma pitada de humor. — Sai daí, se não eu fico tímida. Risos contidos ecoaram entre os cavaleiros. Alec sorriu, balançando a cabeça.

— Aproveita o momento, mãe. Nem todo dia esse menino aqui demonstra respeito. - Leny soltou uma gargalhada suave, puxando Delcia pela cintura com carinho. — E quando ele faz, é melhor aproveitar mesmo. Vai saber quando acontece de novo.

O clima se suavizou. E naquele instante, mais do que uma vitória em batalha ou a salvação de um reino, havia algo maior ali: uma família restaurada, uma mulher renascida, e um povo testemunhando que, às vezes, o maior poder não vem da força, mas do amor que sobrevive a tudo. 

— Meu amado povo... nunca quis ser a rainha que vocês mereciam. Nunca me levantei como uma guerreira para vos defender... e tampouco aceitei, de verdade, ser a esposa amiga que este reino precisava.

Ela virou-se para Leny, com os olhos marejados, mas cheios de amor.

— Mas agora...

E então, diante de todos, Delcia se ajoelhou.

— Permitam-me... só desta vez, ser mais do que uma rainha. Permitam-me ser a vossa mãe.

O salão ecoou em glória. Gritos de aceitação e reverência ecoaram pelos corredores de pedra. 

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⏰ Última atualização: Jun 05, 2025 ⏰

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Boneca PretaOnde histórias criam vida. Descubra agora