CAP 32

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Um monstro

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Um monstro. Foi isso que ela mandou na minha cara. Que me odiava. A voz dela tava embargada de ódio, mas o olhar… o olhar tava gritando socorro. E eu? Fiquei calado. Só olhando. Não porque não tinha o que falar — porque se tem uma coisa que eu sempre tenho é palavra na ponta da língua — mas porque as dela tavam vindo tipo porrada no meio do peito.

— Minha vida já era fudida desde que meu pai morreu… — ela começou, cuspindo cada palavra como se tivesse vomitando tudo que guardou por anos.

A parada do pai morto e o confronto com o dono do morro me fez franzir a testa. Tinha coisa aí. Coisa que eu nunca ouvi, que ela nunca contou. E eu... fiquei esperto.

— Eu tinha só quatorze anos, tive que me virar pra criar minha irmãzinha, enquanto minha mãe se afundava nas droga e esquecia que tinha filha — ela continuou, a voz falhando, mas a firmeza no peito tava ali, presente.

Ela começou a contar dos dias sem comer, da água que bebia pra enganar a fome, de dar o resto pra irmãzinha, de bater de porta em porta pedindo comida. Aquilo mexeu comigo, porra. Não vou mentir. Porque eu cresci vendo isso. Vi neguinho morrer com fome na quebrada. Vi mãe trocar o corpo por um pacote de arroz. Eu vivi isso também. Mas quando ela fala, quando ela me joga isso na cara com aquele olhar... dói de um jeito diferente.

E eu continuo ali. Encostado na parede, de braço cruzado, cara de paisagem, fingindo que nada me atinge. Mas por dentro, meu mundo tava dando uma balançada daquelas.

Era pra eu falar o quê? Que sentia muito? Que tava arrependido? Que ia mudar? Cê tá ligado que eu não sou esse cara. Nunca fui. Meu mundo é outro. Meu corre é sujo, minha vida é pesada. Eu sou o vilão da história dela — e sei bem disso.

Mas a mina toda arrebentada, ali naquela cama de hospital, falando que me odeia, que queria nunca ter me conhecido... porra, aquilo ali bateu. Não tem como fingir que não.

Só que é isso. A cara fria continua. Porque se eu demonstrar qualquer coisa, ela me quebra de vez.

— Quem era teu pai? — soltei do nada, no meio do desabafo dela.

Não sei por quê, mas aquela porra ficou martelando na minha cabeça. Ela falou do pai como se fosse alguém importante... e do jeito que morreu, em confronto com o dono do morro? Aquilo não era comum. Tinha algo ali.

Ela levantou os olhos, inchados de raiva e dor, e me encarou com força.

— Geral chamava ele de Rato... mas o nome dele era Rodrigo. Rodrigo Fernandes.

Senti meu coração falhar uma batida.

Rodrigo Fernandes?

— Rato... do Complexo? — perguntei, mas minha voz já tinha mudado, tremida, quase falhando.

Ela assentiu devagar.

eu gelei. O ar sumiu do quarto. Rato. O braço direito do meu pai. O cara que praticamente me carregou no colo quando moleque. O tio que me ensinou a meter respeito sem levantar a mão, que me dava doce escondido da minha mãe, que me ensinou a andar de bike, porra...

DESTINO TRAÇADO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora