CAP 37

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BM me olhava com uma incerteza que eu nunca tinha visto na vida. Em todo o tempo em que “estivemos juntos”, ele nunca hesitou em falar algo com medo de me magoar — muito pelo contrário, sabia que ia doer e fazia da pior maneira possível.
Mas agora, com os olhos dilatados fixos nos meus, de um jeito que nunca tinha me olhado antes, eu percebia que ele queria me dizer algo. Porém, era como se não tivesse coragem.

— BM, o que você pensa que está fazendo? Dá pra me soltar? — questionei, tentando afastar seu toque. — Você tá me assustando, me encarando desse jeito… como se estivesse planejando um crime na sua cabeça. — Cruzei os braços, desconfiada.

— Tá de brincadeira, Isabel? Tu só fala merda — resmungou ele, franzindo o cenho.

— Então me fala o que você ia me falar — insisti, fitando-o com firmeza.

Ele desviou o olhar, soltando meu braço, como se se arrependesse do que estava prestes a dizer.

— Esquece. Eu não tinha nada pra falar — respondeu, seco.

— Você mente tão mal, hein, BM… — soltei um riso sem humor. — Eu sei muito bem que queria me falar algo. Mas tudo bem, você está certo, esquece tudo. Eu quero ir embora — finalizei, dando um passo para trás.

Ele passou a mão na nuca, visivelmente desconfortável, como se as palavras estivessem presas na garganta. Me olhou de canto, coçou a barba e soltou um suspiro pesado.

— Cê sabe que eu não sou bom nessas paradas, né? — falou, apontando o dedo pra mim como se quisesse reforçar. — Eu não fico fazendo esses papinho de novela que tu gosta… mas é que, sei lá, tu me deixa noiado, Isabel.

Fiquei quieta, tentando entender onde ele queria chegar. Ele riu de nervoso, desviando o olhar pro chão.

— Tu não sabe a raiva que eu fico só de imaginar algum filho da puta chegando perto de você ou te tocando de outra forma… — falou com os olhos estreitos, a voz carregada de ciúme. — E você sabe muito bem disso.

— Pirou de vez, é, BM? — retruquei, arqueando a sobrancelha.

— Sou pirado desde o dia que eu nasci… — ele deu um meio sorriso torto, mas logo ficou sério. — Papo reto, Isabel, eu não sou esses homens que você sonha em ter. Não sou um viadinho que vai chegar num cavalo branco pra te proteger e fazer essas boiolice que toda mulher sonha… mas…

— Mas o quê, BM? Fala. — Cruzei os braços, esperando.

— É isso mesmo que tu tá pensando, caralho! — ele gesticulou, como se quisesse jogar a própria vergonha pra longe. — Eu sou amarradão em tu, Isabel. Pode parecer que não, mas eu sou. E tu não sabe o sacrifício que tá sendo eu falar isso pra você.

— Você… você tá mesmo… — comecei, sem saber como reagir.

— Deixa eu terminar de falar, porra! — cortou, me encarando firme. — Papo dez, eu não sei o que significa a palavra amor, até porque eu nunca tive isso na minha vida… — a voz dele saiu mais baixa, como se a confissão pesasse no ar.

— Mas eu sei que sinto uma coisa estranha por você, que eu nunca senti nem com aquela vagabunda da Paloma… — ele soltou com um riso sem humor, passando a mão no rosto. — Eu tentei de todas as formas ignorar essa merda de sentimento, porque eu sei que, quando descobrirem que você é meu ponto fraco, vão usar isso contra mim. Tu não tem noção da par de inimigos que eu tenho nessa vida… e eu também não sei se vou sair vivo dessa.

— Não… não fala assim, BM. — Pedi, sentindo um aperto no peito.

— É a realidade. — Ele me encarou sério. — Quando tu entra nessa vida, tu entra ciente que, a qualquer momento, pode morrer. Tanto nas mãos dos inimigos quanto nas mãos dos vermes. Não é só você que corre perigo, quem tá à sua volta também corre. E é por isso que eu sempre tentei te afastar… por isso eu sempre te travava daquela forma. — Fez uma pausa, respirando fundo. — Papo reto, sua capetinha, eu nunca precisei pedir desculpas ou admitir que tava errado pra ninguém. Mas agora, aqui, olhando pra você… eu… eu tô ligado que vacilei muito contigo. Te tratei igual a um lixo muitas vezes e, apesar de tudo, nada que eu faça vai apagar o passado. Eu só quero saber se você vai ficar de boa comigo de novo.

DESTINO TRAÇADO Histórias para pegar e não largar. Descubra agora