Breno Morais é o traficante mais temido do Rio de Janeiro, dono do complexo do Alemão. Conhecido por sua frieza e violência, ele domina as ruas com mão de ferro. Por outro lado, há Isabel, uma jovem doce e gentil, que encontra beleza mesmo na advers...
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Passaram-se três dias desde aquela conversa com o BM, e, sinceramente, eu ainda estava tentando entender o que estava acontecendo. Não que ele tivesse virado outra pessoa da noite pro dia — longe disso. BM continuava impaciente, soltando umas patadas aqui e ali, com aquele jeito bruto que parecia vir no automático. Mas tinha algo diferente. Ele não gritava, não me tocava com agressividade, não me tratava como se eu fosse um problema. Do jeito torto dele, ele estava… tentando.
Mandava mensagem perguntando se eu tinha comido. Reclamava se eu demorava pra responder, mas não vinha com ameaça embutida. Às vezes até perguntava se meu braço estava doendo. Era estranho. Bom estranho. Assustador estranho.
No domingo, eu estava na casa da tia Antônia, sentada à mesa do almoço. O cheiro de comida caseira preenchia a cozinha, e o ventilador fazia aquele barulho velho de sempre. Luiza falava sem parar sobre qualquer coisa aleatória, enquanto Lavínia comia quieta, mais atenta a tudo do que parecia.
— Menina, come mais um pouco — tia Antônia disse, colocando mais comida no meu prato. — Você anda tão aérea esses dias.
— Tô bem, tia — respondi, forçando um sorriso.
A conversa seguia solta, passando por fofocas do bairro, reclamações da vida, risadas soltas da Luiza… até que tia Antônia largou os talheres e me olhou com aquele olhar de quem já sabe a resposta, mas quer ouvir da sua boca.
— Isabel… o que é que você realmente tem com esse tal de BM?
O silêncio caiu na mesa na mesma hora. Senti meu rosto esquentar.
— Tia… — comecei, sem saber muito bem por onde ir.
— Eu não tô te julgando — ela disse, calma. — Só quero entender.
Respirei fundo, sentindo o peso de todos os olhares em cima de mim.
— Eu… ainda não sei direito — admiti, mexendo na comida com o garfo. — A gente teve uma conversa. Uma conversa séria. Ele disse coisas que nunca imaginei ouvir.
Luiza parou de mastigar na hora.
— Tipo o quê? — perguntou, curiosa demais pro próprio bem.
Engoli em seco.
— Ele disse que me ama. Disse que quer tentar fazer diferente. E… nesses últimos dias, ele realmente mudou. Não tá sendo violento, não tá me tratando mal como antes.
Luiza arregalou os olhos.
— COMO ASSIM? — quase gritou. — Isabel, tu tá falando do mesmo BM que…?
— Eu sei — interrompi, antes que ela terminasse. — Eu sei de tudo o que ele já fez. Eu não esqueci. É por isso que eu disse que ainda não sei. Eu tô com medo. Mas também tô vendo coisas que nunca vi antes.
Tia Antônia suspirou fundo, pensativa, sem dizer nada de imediato. Lavínia continuava em silêncio. Ela não me encarava diretamente, mas eu sentia o olhar dela em mim o tempo todo. Observando. Analisando. Ela sabia que eu tinha descoberto. Sabia que eu tinha guardado muita coisa pra mim. E aquele silêncio dela dizia mais do que qualquer pergunta.