O sol da manhã entrava preguiçoso pela janela do antigo quarto de infância de Marjorie, em Florença. A casa dos pais era um refúgio de memórias: livros de arte, móveis de madeira escura, cheiro de café fresco e orquídeas no parapeito da cozinha.
Ela estava deitada na cama, cabelo preso em um coque bagunçado, vestindo uma camiseta antiga da universidade, com o celular apoiado sobre o travesseiro. A tela piscou com o nome de Emma. Marjorie atendeu com um sorriso antes mesmo da imagem se estabilizar.
— Buongiorno, estrella del paddock — disse Emma, com aquele sotaque catalão que deixava tudo mais dramático do que precisava.
— Não começa — respondeu Marjorie, rindo. — E você tá com uma cara de quem dormiu quatro horas e ainda tá apaixonada.
— A parte do sono é real, a da paixão... talvez.
— Talvez? Emma Ricart dizendo talvez?
Emma deu um sorriso contido, mas não disfarçou.
— A gente tem trocado mensagens. Bastante, pra ser honesta.
— "A gente" quem?
Emma ergueu uma sobrancelha.
— Carlos. Quem mais? Ele me mandou um vídeo ontem do Max dançando no after. Disse que lembrou de mim quando viu.
Marjorie arregalou os olhos.
— Carlos mandou um vídeo do Max dançando e disse que lembrou de você? Isso é quase uma aliança.
— Pois é. Tô assustada. Mas no bom sentido.
As duas riram, cúmplices.
— E você? — Emma perguntou com aquela entonação certeira. — Vai me contar ou vai fingir que não quase beijou o Charles Leclerc no Canadá?
Marjorie afundou o rosto no travesseiro, gemendo.
— Não foi um quase. Foi um quase do quase. E o George entrou gritando igual uma criança em parque aquático. Juro que senti o ar se desfazendo.
— Mas você queria, né?
Ela hesitou por dois segundos, depois assentiu.
— Queria. E eu acho que ele também.
— Vocês precisam parar de flertar só com palavras. Isso é tortura emocional pra quem assiste de fora.
Marjorie suspirou e riu, mexendo no celular.
— A gente trocou umas mensagens ontem.
— Tá rolando?
— Tá rolando... uma coisa estranha. Boa, mas estranha. Como se a gente tivesse andando em um campo minado de palavras. Qualquer passo em falso e tudo explode. E ao mesmo tempo... eu gosto de falar com ele.
— E ele com você, claramente. Me mostra essas mensagens.
Marjorie abriu o celular, meio envergonhada, e leu algumas das últimas trocas:
Charles Leclerc
🕐 22h17
“Não sei o que foi mais difícil hoje: encarar a fila do mercado ou esquecer como você olhou pra mim antes do George aparecer.”
Marjorie
🕐 22h21
“Você definitivamente encara mercados com mais coragem do que pistas.”
Charles Leclerc
🕐 22h24
“Talvez. Mas pistas na maioria das vezes não me fazem perder o sono.”
Marjorie
🕐 22h28
“Ainda bem que a próxima corrida tá longe. Assim você dorme em paz.”
Charles Leclerc
🕐 22h31
“Difícil... certas lembranças são mais insistentes que jet lag.”
