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29. Baby

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Marjorie saiu do motorhome com o tablet contra o peito, como se fosse um escudo. A claridade fria do paddock parecia amplificar cada lembrança da noite anterior. O toque da mão dele em seu rosto. O jeito como a voz dele soava perto demais. O beijo — aquele primeiro, quase sem pressa, que ainda não cabia em nenhuma definição. O problema é que, por mais que tentasse repetir pra si mesma foi só um jantar, ela sabia que não tinha sido só isso.

Atravessou o corredor da McLaren com o passo firme que treinara a vida inteira. Mas antes mesmo de chegar à área de trabalho, Lando apareceu, apoiado na divisória com a expressão de quem esperava ali fazia tempo.

— Bom dia, Mazza. — Ele tirou os óculos escuros só pra poder encará-la nos olhos. — Dormiu bem?

Ela tentou passar direto.

— Lando, por favor.

— Só uma pergunta inocente — insistiu ele, andando ao lado dela. — Você voltou que horas?

— Tarde.

— Tarde tipo "foi um jantar longo" ou tarde tipo "perdi a noção do tempo porque beijei um certo monegasco"?

Ela parou tão de repente que ele quase trombou nas costas dela. Virou-se devagar, o olhar fulminante.

— Se você não quer começar o dia com uma prancheta na cabeça, eu sugiro que pare de falar — Lando ergueu as mãos, fingindo rendição, mas o sorriso denunciava tudo.

— Tá bom, tá bom. — Ele deu um passo pra trás. — Mas só pra constar: estou feliz por vocês.

Ela suspirou, meio irritada, meio comovida, e virou de novo, seguindo até a salinha de reuniões. Mas antes que fechasse a porta, ouviu Lando acrescentar:

— E... você tá diferente.

— Diferente como? — perguntou, sem se virar.

— Mais leve. — ele disse, sério de verdade, pela primeira vez naquela manhã. — Faz tempo que eu não te via assim. Desde aquele ser que a gente chama de engenheiro.

Ela ficou em silêncio, a mão parada na maçaneta. Só depois de alguns segundos teve coragem de empurrar a porta e entrar.

No outro lado do paddock, Charles encostava o quadril na bancada da Ferrari, mexendo no celular como se só estivesse checando mensagens. Ainda não parecia real. O jantar. O jeito como ela riu de verdade depois do primeiro gole de vinho. O beijo — especialmente o beijo — tão calmo e tão intenso que ele ainda sentia na pele.

Carlos se aproximou, ajeitando os punhos do macacão vermelho.

— Você sumiu ontem — disse em espanhol, com o tom casual de quem já sabia que havia história. — Qué pasó?

Charles demorou a responder. Por fim, bloqueou o celular e enfiou as mãos nos bolsos. Olhou para os dois lados, como quem precisasse contar um segredo,. Que de fato não deixava de ser.

— Sai com ela ontem.

— Con quién? — Carlos arqueou uma sobrancelha, já desconfiado — Com quem? — repetiu, como se precisasse confirmar.

— Marjorie — disse Charles, meio baixo, mas firme.

Carlos não escondeu a surpresa. A descrença durou só alguns segundos antes de se transformar numa expressão entre cínica e preocupada.

— Você tá me dizendo que saiu com a minha amiga e achou que ia manter isso em segredo?

Charles desviou o olhar, quase envergonhado.

— Eu não sabia como contar. Nem se devia contar. Aconteceu, só isso.

Carlos bufou e cruzou os braços.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora