Marjorie saiu do motorhome com o tablet contra o peito, como se fosse um escudo. A claridade fria do paddock parecia amplificar cada lembrança da noite anterior. O toque da mão dele em seu rosto. O jeito como a voz dele soava perto demais. O beijo — aquele primeiro, quase sem pressa, que ainda não cabia em nenhuma definição. O problema é que, por mais que tentasse repetir pra si mesma foi só um jantar, ela sabia que não tinha sido só isso.
Atravessou o corredor da McLaren com o passo firme que treinara a vida inteira. Mas antes mesmo de chegar à área de trabalho, Lando apareceu, apoiado na divisória com a expressão de quem esperava ali fazia tempo.
— Bom dia, Mazza. — Ele tirou os óculos escuros só pra poder encará-la nos olhos. — Dormiu bem?
Ela tentou passar direto.
— Lando, por favor.
— Só uma pergunta inocente — insistiu ele, andando ao lado dela. — Você voltou que horas?
— Tarde.
— Tarde tipo "foi um jantar longo" ou tarde tipo "perdi a noção do tempo porque beijei um certo monegasco"?
Ela parou tão de repente que ele quase trombou nas costas dela. Virou-se devagar, o olhar fulminante.
— Se você não quer começar o dia com uma prancheta na cabeça, eu sugiro que pare de falar — Lando ergueu as mãos, fingindo rendição, mas o sorriso denunciava tudo.
— Tá bom, tá bom. — Ele deu um passo pra trás. — Mas só pra constar: estou feliz por vocês.
Ela suspirou, meio irritada, meio comovida, e virou de novo, seguindo até a salinha de reuniões. Mas antes que fechasse a porta, ouviu Lando acrescentar:
— E... você tá diferente.
— Diferente como? — perguntou, sem se virar.
— Mais leve. — ele disse, sério de verdade, pela primeira vez naquela manhã. — Faz tempo que eu não te via assim. Desde aquele ser que a gente chama de engenheiro.
Ela ficou em silêncio, a mão parada na maçaneta. Só depois de alguns segundos teve coragem de empurrar a porta e entrar.
No outro lado do paddock, Charles encostava o quadril na bancada da Ferrari, mexendo no celular como se só estivesse checando mensagens. Ainda não parecia real. O jantar. O jeito como ela riu de verdade depois do primeiro gole de vinho. O beijo — especialmente o beijo — tão calmo e tão intenso que ele ainda sentia na pele.
Carlos se aproximou, ajeitando os punhos do macacão vermelho.
— Você sumiu ontem — disse em espanhol, com o tom casual de quem já sabia que havia história. — Qué pasó?
Charles demorou a responder. Por fim, bloqueou o celular e enfiou as mãos nos bolsos. Olhou para os dois lados, como quem precisasse contar um segredo,. Que de fato não deixava de ser.
— Sai com ela ontem.
— Con quién? — Carlos arqueou uma sobrancelha, já desconfiado — Com quem? — repetiu, como se precisasse confirmar.
— Marjorie — disse Charles, meio baixo, mas firme.
Carlos não escondeu a surpresa. A descrença durou só alguns segundos antes de se transformar numa expressão entre cínica e preocupada.
— Você tá me dizendo que saiu com a minha amiga e achou que ia manter isso em segredo?
Charles desviou o olhar, quase envergonhado.
— Eu não sabia como contar. Nem se devia contar. Aconteceu, só isso.
Carlos bufou e cruzou os braços.
