O céu de Montreal estava limpo, com nuvens dispersas refletindo o brilho metálico das arquibancadas lotadas. O rugido dos motores ainda ecoava pelo ar quando Charles cruzou a linha de chegada, os braços ao alto no cockpit, num gesto breve de alívio antes da explosão pelo rádio.
— C’est fait! On l’a fait! — a voz emocionada dele misturou-se aos gritos da equipe no pit wall.
Marjorie sorriu, fones ainda nos ouvidos, o tablet pressionado contra o peito. Ela observava o frenesi em volta, fotógrafos correndo, mecânicos saltando, repórteres esbarrando em qualquer um com um crachá. Mas seus olhos estavam voltados para o pódio que ainda nem tinha sido montado — e já guardava promessas.
Charles em primeiro. Lando logo atrás. Carlos fechando o trio. Uma corrida limpa, intensa e com o tipo de resultado que os fãs sonham. E para Marjorie, uma prova a mais de que nada era por acaso naquela temporada. Ela atualizava notas de imprensa, organizava os horários das entrevistas e repassava os detalhes do cronograma da equipe. Tudo com a precisão de quem já estava acostumada a funcionar no caos.
— Tá com cara de que vai ter festa hoje — murmurou uma das colegas.
— Festa e coletiva. Tudo ao mesmo tempo. A F1 nunca sabe dosar, né? — respondeu Marjorie, prendendo o crachá no bolso da camisa.
O pódio aconteceu sob aplausos e jatos de champanhe. Charles estava leve, quase etéreo, como se os últimos meses tivessem se dissolvido ali, naquele degrau mais alto. Lando e Carlos riam, molhados até a alma, brincando como se fossem garotos de novo.
Quando desceu, ainda em meio à equipe, Charles encontrou o olhar de Marjorie por um segundo. Não havia tempo para conversas ali, mas ela levantou o polegar, discreta. Ele retribuiu com um meio sorriso, cúmplice.
Horas depois, já com o paddock desmontando ao fundo, as conversas mudavam de tom. Agora, era sobre onde seria a comemoração.
— Dizem que tem um lugar incrível à beira do lago. Um bar meio escondido, mas com música boa — sugeriu um dos engenheiros, animado.
— Desde que tenha tequila, eu topo — disse Lando, ainda com o cabelo molhado do champanhe.
Carlos, ao lado, tentava convencer o grupo de que a ideia de uma festa menor, só entre amigos, era melhor.
— A gente já teve multidão hoje. Agora quero só os de casa.
— E você, Ma? Vai com a gente né? — perguntou Lando, parado ao lado dela.
— Tenho que terminar de enviar umas atualizações pra imprensa. E talvez ver sobre os horários do voo amanhã.
— Você trabalha demais — disse Carlos, com um sorriso. — Uma hora dessas, alguém vai ter que sequestrar seu celular pra te obrigar a relaxar.
— Não vai ser você, espero.
— Ainda não decidi.
Ela observou enquanto eles se perdiam entre vozes animadas e planos mal definidos. A noite ainda estava por começar. E, embora tivesse mil razões para voltar ao computador, Marjorie sentiu que aquela talvez fosse uma daquelas raras ocasiões em que sair do roteiro era a melhor forma de viver a história.
O salão privativo do bar vibrava com música e vozes, iluminado por luzes âmidas que davam à noite um ar de filme europeu. As risadas se misturavam ao som dos copos se tocando, e o grupo de pilotos — agora oficialmente relaxados — parecia esquecer por algumas horas o peso da próxima corrida.
Marjorie estava sentada em um dos sofás, as pernas cruzadas, uma taça de vinho branco na mão e o sorriso fácil enquanto conversava com Kelly e Rebecca. O cabelo solto caía com leveza sobre os ombros, e o riso dela era um som que ele já começava a reconhecer de longe.
