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14. Mercy

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A chuva, prevista para depois da corrida, chegou antes da cerimônia do pódio. Gotas finas e persistentes começaram a cair enquanto os carros ainda davam a volta de desaceleração, cobrindo o circuito com um brilho irregular. Marjorie observava a pista do fundo do box, os olhos presos no telão. Norris tinha terminado em quarto lugar. Um resultado sólido, sim, mas não era o que ele queria. Nem o que ele prometera a si mesmo.

— Ele vai ficar remoendo isso até terça — Emma comentou, surgindo ao lado dela.

— Ele já tá remoendo desde a última curva — respondeu Marjorie, sem tirar os olhos da tela.

Ela sabia o que vinha a seguir: as conversas técnicas arrastadas.

Depois de um banho rápido no motorhome e o tempo suficiente para a equipe organizar os dados, Marjorie voltou à sala de reuniões. Lando já estava lá, ainda de macacão aberto e cabelo molhado de chuva, olhando fixamente para a tela com os tempos de volta.

— Quase — ele disse, sem emoção.

Ela se sentou ao lado dele.

— Quase ainda é melhor que nunca ter chegado perto.

— Faltou detalhe. Uma curva limpa. Um pit stop mais rápido. Sei lá.

— Ou talvez só faltou parar de se culpar por tudo que não controla.

Ele a encarou com olhos cansados, e depois soltou um suspiro
— Isso foi sua ou do Leclerc? — Ela arqueou uma sobrancelha.

— Meu. Mas se ele falou algo parecido, talvez ele esteja certo também.

Houve um breve silêncio. Lando relaxou um pouco.

— Então você realmente tá... falando com ele? — Marjorie hesitou por um instante.

— Tô. Mas não como você acha.

Lando não respondeu. Apenas assentiu. Ele parecia entender mais do que dizia. 

Mais tarde, já com o paddock em ritmo de desmontagem, Marjorie se afastou do fluxo intenso de caixas e equipamentos. Encontrou um canto tranquilo entre os motorhomes, e como se algo em seu instinto a guiasse, lá estava ele.

Charles, ainda com parte do macacão, sentado em uma mureta baixa, mexendo no celular. Ele levantou os olhos ao notar a presença dela e sorriu — não aquele sorriso público, controlado. Um que só ele parecia guardar para ela.

— Seu piloto ficou em quarto — disse, com um leve tom de provocação.

— Ainda tá em modo modesto ou já ativou o modo convencido P2?

— Ainda tô processando. Não dá pra entender muita coisa depois que se tira o capacete. Só sei que pensei em você na penúltima volta.

Marjorie ficou imóvel por um segundo, surpreendida.

— Pensou... em mim?

— Pensei que... talvez você estivesse assistindo. E, sei lá, torcendo um pouco. Mesmo que não devesse.

Ela sorriu. Um daqueles sorrisos que vêm do centro do estômago, leves, inesperados.

— Eu tava claro, torço pra todos vocês.

Charles após um banho e uma longa reunião estava mais uma vez naquela cafeteria, talvez se tornasse rotineiro um café no fim da tarde. Olhou para Marjorie por um segundo a mais, o silêncio entre eles parecendo carregar tudo aquilo que ainda não sabiam como dizer. Ela mexia distraidamente no copo de café já quase vazio, e ele tamborilava os dedos na mesa, os olhos ainda nela.

— Sabe, se você continuar aparecendo nesses momentos em que eu tô quase surtando... — ela começou, com um meio sorriso — ...vai acabar sendo promovido a psicólogo não-oficial da McLaren.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora