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27. Jantares

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Ela respirou fundo e abriu a mala com aquele cuidado meticuloso que usava até para organizar planilhas. Separou primeiro uma calça preta, mas desistiu antes mesmo de colocá-la na cama. Formal demais. Depois pegou um vestido azul-marinho, de tecido macio. Elegante, mas não chamativo — com mangas três-quartos e um decote sutil que valorizava seu pescoço. Um par de sandálias pretas de salto médio completava o conjunto. Era uma produção que usaria tranquilamente num jantar com Lando, Carlos ou George. E, na verdade, já tinha usado. Porque estar com eles — sempre pareceu natural, parte do trabalho, parte da amizade. Nenhuma manchete sobre isso a tinha abalado de verdade.

Mas Charles...

Ela mordeu o lábio inferior, observando a si mesma no espelho. Com Charles, tudo ficava diferente. Mais delicado. Mais fácil de mal interpretar. Ele era aquela presença que ultimamente pairava no canto dos bastidores, a quem ela tentava sorrir menos, olhar menos, sentir menos.
E agora estava ali, escolhendo um vestido só para sentar frente a frente com ele. Só para conversar. 

Só.

O celular vibrou.

Charles Leclerc
20:03
Chego em vinte minutos. Fica tranquila, ninguém vai nos incomodar. Conheço bem os donos 😉

Ela inspirou devagar, ajeitou o coque baixo que deixava algumas mechas soltas ao redor do rosto. Passou um batom cor de vinho suave — nada exagerado, mas ainda assim um pouco mais do que usaria normalmente. Enquanto recolhia a bolsa pequena de couro preta, ouviu a própria consciência protestar que aquilo não era uma boa ideia. Que já bastava a imprensa inventar namoros cada vez que ela aparecia em uma foto ao lado do Lando. Mas não é a mesma coisa, ela pensou. E era verdade. Ela sempre esteve nos restaurantes, nos boxes, nas corridas. Nunca teve medo de ser vista com ele — porque não havia nada a esconder. 

O ar fresco da noite bateu em seu rosto ao deixar o hotel pela porta lateral. O estacionamento estava quase vazio. Um único carro aguardava ao longe, discreto, sem nada que gritasse piloto de Fórmula 1. Mas ela reconheceu o contorno do capô de imediato. Charles saiu do banco do motorista assim que a viu. O sorriso que ele deu não era largo, nem presunçoso — era só um convite silencioso, como se dissesse que ele também estava nervoso.

— Charles — ela disse, ajeitando uma alça do vestido no ombro num gesto automático.

Por um momento, ficaram apenas se olhando. E foi ali, naquele intervalo, que ela teve certeza de que não importava quantos jantares dividira com os amigos pilotos — nunca tinha sido assim. Nunca tinha sido tão simples e tão complicado ao mesmo tempo.

— O restaurante é a uns dez minutos daqui — Charles disse por fim, passando uma das mãos pelos cabelos, num jeito que denunciava seu nervosismo. — É pequeno, muito tranquilo. Eu... queria que você pudesse relaxar.

Ela assentiu, sentindo o coração martelar.

— Obrigada por pensar nisso.

O carro deslizou pela estrada sinuosa que margeava o lago, as luzes baixas refletindo na água calma. Marjorie mantinha as mãos apoiadas sobre o joelho, os dedos entrelaçados para não demonstrar que tremiam. De relance, estudava Charles. O perfil concentrado, a linha firme do maxilar, o modo como ele segurava o volante com uma tranquilidade que parecia vir de outro planeta. Era impressionante como ele conseguia ser... contido. E, ao mesmo tempo, tão absurdamente presente. Ela desviou o olhar, só para dar um descanso ao coração. Mas, inevitavelmente, voltou a observar: A camisa branca, impecavelmente passada, com os punhos dobrados até o antebraço bronzeado. O relógio discreto, nada chamativo.

O perfume dele, algo fresco e quase familiar.

Charles percebeu o silêncio prolongado e lançou-lhe um sorriso de canto, sem desviar muito da estrada.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora