Marjorie avisou por mensagem e, menos de vinte minutos depois, estava descendo o elevador do hotel. O cabelo preso em um coque improvisado, um moletom cinza claro e tênis brancos — confortável, sem esforço. Era assim que ela queria se sentir: leve. Charles a esperava no lobby. Havia trocado o uniforme da equipe por uma camiseta escura de manga longa e jeans, mas ainda carregava aquele ar de quem tinha saído do paddock há pouco. Quando a viu, abriu um sorriso que começava nos olhos.
— Oi.
— Oi.
Saíram sem destino muito planejado. Caminharam algumas quadras até um bistrô pequeno e discreto, com mesas de madeira clara e velas acesas nas janelas. Pediram uma sopa, pão e vinho branco. A conversa veio naturalmente.
— Como você tá mesmo? — perguntou ele, depois de alguns minutos falando sobre a pista.
Marjorie demorou um pouco para responder.
— Tô cansada. Mas tranquila. Hoje foi estranho. Enrico apareceu no meu quarto.
Os olhos de Charles endureceram levemente.
— Ele te incomodou? — Ela balançou a cabeça.
— Não. Só... tentou aquela abordagem ensaiada de sempre. Disse que viu a gente ontem no jantar — Charles apoiou os cotovelos na mesa, as mãos entrelaçadas.
— E?
— E eu fechei a porta — respondeu, dando de ombros. — Pela primeira vez sem culpa.
Charles assentiu. Não disse "parabéns" nem "era o certo". Só ofereceu um silêncio acolhedor, que dizia: eu tô aqui.
— Sabia que você é bom com silêncios? — ela comentou, brincando. — Tipo... você não tenta preencher tudo com palavras.
— Talvez porque eu nunca sei o que dizer — ele sorriu, tímido.
— Ou talvez porque você entende que algumas coisas não precisam ser ditas. Só sentidas.
O olhar dele se demorou um pouco mais que o normal sobre ela. E por um momento, ninguém falou. Só havia o som suave do restaurante, o tilintar de talheres e um violão acústico ao fundo.
— Tem sido especial pra mim, Marjorie.
Ela desviou os olhos, sem saber muito bem o que fazer com aquela frase. Mas sentiu. O corpo inteiro entendeu antes da mente. Ele não falava só do jantar. Falava do espaço que estavam criando, do que vinha crescendo ali sem precisar de pressa.
— Eu tô bem assim — disse ela, por fim, com um sorriso pequeno. — Aos poucos.
Charles assentiu outra vez. Puxou o guardanapo devagar, como se ocupasse as mãos para não fazer o que talvez quisesse — tocar na dela.
— Eu gosto do que estamos construindo — Ela mordeu o lábio, olhando para ele.
— Eu também.
Pagaram a conta juntos, recusaram sobremesa. Do lado de fora, o ar estava frio, e Charles ofereceu o casaco que havia trago sem dizer nada. Voltaram caminhando devagar até o hotel. No elevador, o silêncio era confortável. Um tipo de silêncio que não pedia explicações.
Na porta do quarto dela, pararam.
— Boa noite, Marjorie.
— Boa noite, Charles.
Houve uma hesitação breve. Um meio-passo à frente, um olhar mais longo do que o necessário. Mas nenhum dos dois forçou nada. Quando ela entrou e fechou a porta, apoiou a testa na madeira por um segundo. Só um segundo. Porque, de algum jeito, aquele tipo de leveza também dava medo.
