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45.

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A manhã chegou antes que ela estivesse pronta.
Não houve transição suave entre a noite e o dia — foi como se alguém tivesse virado uma chave. O calor dos lençóis, o peso confortável do braço de Charles Leclerc ao redor dela, o silêncio seguro… tudo ainda estava ali, mas já não pertencia mais ao mesmo mundo. Marjorie abriu os olhos devagar.
Por um instante, ficou imóvel.
Observando.
Memorizando.

O contorno do rosto dele, a respiração tranquila, o cabelo levemente bagunçado caindo sobre a testa. Existia uma versão de Charles que o mundo nunca via — e, de alguma forma, era essa versão que mais a assustava perder. O piloto era público. Aquele homem, não.
A mão dela subiu até o colar, os dedos tocando o metal frio contra a pele quente. Um gesto pequeno, quase automático, mas carregado de significado.
Aquilo era real.
Mesmo que ninguém mais soubesse. Mesmo que ninguém pudesse saber.
— Você sempre acorda assim? — a voz dele veio rouca, ainda meio perdida no sono — ou é só quando tá tentando fugir dos próprios pensamentos?

Ela soltou um pequeno sorriso, quase imperceptível.
— Você fala demais pra alguém que acabou de acordar.

Charles abriu os olhos devagar, virando o rosto na direção dela. Não havia pressa nele. Nunca havia, quando estavam assim. Mas havia algo diferente naquele olhar.
Consciência.
— A gente volta hoje — ele disse, simples.
E ali estava. A realidade.
Marjorie sustentou o olhar por alguns segundos antes de desviar. Porque, se ficasse mais tempo, talvez mudasse de ideia sobre ir embora.
E isso nem era uma opção.

O caminho até o aeroporto foi silencioso demais. Não desconfortável — mas cheio.
Cheio de coisas que não foram ditas porque não precisavam… e outras que não foram ditas porque não podiam. Mônaco ficava para trás aos poucos, como se recusasse a soltá-los completamente.
Mas soltava.
O aeroporto de Nice devolveu tudo de uma vez. Barulho. Movimento. Olhares. Celulares levantados.
Equipes funcionando como engrenagens perfeitamente ensaiadas.
Marjorie sentiu o corpo reagir antes da mente — postura ajustada, expressão neutra, passos firmes. Era automático e necessário.
Era a versão dela que sobrevivia ali dentro.

. . .

O paddock tinha um cheiro específico em dia de início de GP. Não era algo que se explicava facilmente — uma mistura de borracha, café passado às pressas, perfume caro e expectativa mal disfarçada. Para quem vivia aquilo toda semana, era quase imperceptível. Para Marjorie, naquele dia, era impossível ignorar.
Talvez porque tudo estivesse alto demais dentro dela.
Ela chegou cedo, como sempre. Óculos escuros, cabelo preso de forma prática, tablet já aberto antes mesmo de atravessar completamente os portões. O corpo no automático, como se cada movimento já soubesse exatamente onde precisava estar. Era mais fácil assim. Quando ela se concentrava no trabalho, o resto diminuía.
Ou fingia diminuir.
— Você sabia que existe uma chance real de eu simplesmente não trabalhar hoje?
A voz veio antes da presença, arrastada, carregada de um humor preguiçoso que ela conhecia bem demais. Marjorie nem precisou olhar para saber que era Lando Norris.
— Existe uma chance real de você nunca ter trabalhado — ela respondeu, sem tirar os olhos da tela.
Ele apareceu ao lado dela mesmo assim, inclinando o corpo o suficiente para tentar espiar o que ela estava vendo.
— Isso é ofensivo. Eu sou extremamente dedicado.
— Você chegou atrasado.
— Cheguei no meu tempo.
Ela finalmente virou o rosto, tirando os óculos por um segundo só para lançar um olhar direto.
— Que, coincidentemente, nunca é o correto.
Lando sorriu, completamente confortável.
— É por isso que você existe.
Aquilo arrancou um sorriso dela — pequeno, mas real. E por um momento, tudo parecia normal de um jeito que quase doía.
— Bom dia pra vocês também — a nova voz entrou na conversa com facilidade, carregando um leve sotaque e uma familiaridade tranquila.
Carlos Sainz se aproximava já rindo, como se tivesse assistido à cena inteira de longe.
— Ela já começou a te humilhar cedo hoje? — ele perguntou para Lando.
— Sempre — Lando respondeu, indignado demais para ser levado a sério — eu vivo sob ataque.
— Drama — Marjorie murmurou, voltando a andar.

Os dois acompanharam naturalmente, como sempre faziam. Era um ritmo conhecido, confortável, cheio de pequenas interrupções e comentários que não levavam a lugar nenhum — e exatamente por isso funcionavam.
— Você ficou em Mônaco, né? — Carlos comentou, casual, mas atento.
Por um segundo, foi só uma pergunta.
Mas Marjorie sentiu.
Não como ameaça.
Mas como proximidade demais de algo que precisava continuar intocado.
— Fiquei — respondeu, no mesmo tom leve — precisava de alguns dias sem vocês.
— Isso explica o brilho — Lando disse, analisando ela com exagero — descanso fez bem. Devia acontecer mais.
— Anota aí — ela rebateu — próximo GP eu tiro férias de novo.
— Negado — ele respondeu na hora.
Carlos riu baixo, observando os dois com aquele olhar de quem entendia mais do que comentava.
E foi nesse momento que a energia mudou.
Não de forma brusca.
Mas suficiente.
Marjorie sentiu antes de ver.
A presença.
O movimento sutil ao redor. E, quando virou o rosto, ele já estava ali.
Charles Leclerc vinha na direção deles, passos tranquilos, expressão neutra — perfeitamente alinhado com o que o mundo esperava dele. Mas os olhos…
Os olhos sempre entregavam primeiro. E, por uma fração de segundo, encontraram os dela.
Foi rápido.
Controlado.
Quase inexistente.
Mas foi o suficiente para fazer tudo dentro dela se reorganizar.
— Olha só quem decidiu aparecer — Lando comentou, completamente alheio à mudança sutil — achei que você tinha desistido da temporada depois de Mônaco.
— Pensei nisso — Charles respondeu, parando ao lado deles — mas aí lembrei que você não sobrevive sozinho.
— Ingrato —  Carlos soltou uma risada baixa.
— Ele tem um ponto.
A dinâmica se encaixou fácil demais. Conversas sobre corrida, sobre descanso, sobre qualquer coisa superficial o suficiente para manter tudo no lugar certo. Era quase impressionante como funcionava — como todos ali conseguiam sustentar aquela normalidade sem esforço aparente.
Mas, por baixo…
Nada era simples.
Marjorie manteve o olhar no tablet mais tempo do que precisava, respondendo quando necessário, participando na medida certa. E, ainda assim, havia momentos.
Como quando Lando disse alguma coisa absurda e ela riu — e, no reflexo, encontrou Charles olhando. Não direto. Não óbvio. Mas ali.
Ou quando Carlos fez uma piada interna que não fazia sentido completo… exceto para quem estava em Mônaco.
— Eu ainda acho que aquela escolha foi questionável — ele comentou, casual demais.
Marjorie arqueou levemente a sobrancelha, entendendo na hora.
— Foi estratégica.
— Foi sorte — Lando cortou.
— Foi talento — ela corrigiu, automaticamente.
Charles desviou o olhar, mas não antes de um sorriso quase imperceptível aparecer.
Rápido demais para ser notado. Exceto por quem sabia exatamente onde olhar. Carlos percebeu.

Charles sempre soube separar.
Foi algo que aprendeu cedo demais — dentro e fora das pistas. Emoção de um lado, execução do outro. Sentir menos, controlar mais. Era assim que funcionava.
Mas naquele dia…Não estava funcionando.
Do lado de fora do motorhome, encostado de forma aparentemente relaxada, ele observava o movimento do paddock com atenção suficiente para parecer normal. Pessoas indo e vindo, equipes ajustando detalhes, vozes misturadas em diferentes idiomas. Tudo igual a qualquer outro fim de semana. Exceto que não era.
Porque, em algum ponto entre Mônaco e ali, algo tinha mudado de lugar dentro dele. E agora não cabia mais voltar atrás.

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⏰ Última atualização: Apr 10 ⏰

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The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora