No paddock, o sol batia firme sobre as estruturas brancas e o barulho de equipamentos sendo testados preenchia o ar. O cenário já era outro a cada grande prêmio. Ali, cada um sabia exatamente o que fazer. Marjorie caminhava ao lado de Lando, segurando o ipad com os horários e anotações da equipe. Ele resmungava algo sobre a pressão da mídia.
— O briefing* com os engenheiros é às dez, e às dez e quarenta você tem a coletiva — ela disse, firme. — Se tentar escapar de novo, eu coloco você de volta lá pessoalmente.
— Você era muito mais simpática ontem à noite — ele comentou com uma careta.
— Ontem à noite eu não era sua assistente. Agora voltei ao trabalho.
Eles se entreolharam e riram. Lando sabia que podia confiar nela. Mesmo nos dias mais complicados. Enquanto passavam pelo corredor entre os boxes da McLaren e da Ferrari, Marjorie sentiu o olhar puxá-la para a garagem ao lado. Charles estava com a viseira levantada, encostado na parede ao lado da entrada da Ferrari. Estava concentrado, como sempre, mas ao notá-la, apenas ergueu uma sobrancelha — um gesto pequeno, como quem pergunta: "Tudo certo aí?"
Ela respondeu com um aceno discreto, sem parar de andar. Mas o calor subindo no rosto foi inevitável. Lando não deixou passar.
— Vocês dois têm alguma linguagem secreta agora? — perguntou, divertido, enquanto ajustava o boné com o logo da equipe.
— É só educação, Norris — ela respondeu, seca, tentando disfarçar.
— Aham. Se ele te der mais um drink, eu quero comissão.
No box da McLaren, Marjorie rapidamente se reconectou com a rotina: checava rádio, falava com os engenheiros, atualizava Lando entre uma pausa e outra. Mas por mais que estivesse focada, o olhar de Charles reaparecia em flashes involuntários. Ela só conseguia lembrar que Enrico ainda se encontrava ali e o término deles era muito mais recente do que a cabeça dela queria aceitar.
Durante o intervalo entre sessões, enquanto ela revisava mensagens no celular, ouviu uma voz conhecida atrás de si:
— Ajudando o Norris a ficar mais rápido ou só garantindo que ele tome água?
Ela virou com um meio sorriso.
— Um pouco dos dois. Mas admito que hoje estou supervisionando geral. Cuidado — Charles ergueu as mãos, rendido.
— Vou me comportar então.
Antes que ela pudesse responder, um engenheiro da Ferrari o chamou. Charles deu um passo para trás, mas antes de virar, disse baixinho:
— Boa sorte com ele. E... se precisar de mais café, eu juro que sei preparar.
O pit lane fervilhava de engenheiros apressados, pneus trocados em segundos e vozes cruzando o rádio com ordens precisas. Marjorie checava os últimos dados da telemetria no tablet quando ouviu, pelas costas, uma voz que não ouvia desde a noite passada — baixa, controlada, quase ensaiada.
— Marjorie.
Ela fechou os olhos por um segundo antes de se virar. Enrico se aproximava com um dos uniformes da McLaren que ela vivia dizendo que adorava, a expressão cuidadosamente neutra. Como se aquilo fosse apenas uma conversa técnica entre dois membros da equipe.
— Preciso que você solicite atualização a análise do segundo setor o Norris disse que você estava cuidando disso — falou, olhando diretamente para ela, mas com um sorriso contido demais para ser só profissional.
— Já tá no sistema. Verifica na pasta de estratégia, com a atualização das onze e trinta — respondeu, mantendo a voz firme.
— Eu vi, mas achei melhor vir falar com você. Pessoalmente — Ela manteve o olhar fixo no tablet.
