O avião havia pousado em Londres na tarde de terça-feira. A viagem tinha sido tranquila, mas o cansaço ainda pairava, e Silverstone amanheceu fria, envolta pelo céu cinzento típico do interior inglês. A grama do lado de fora do hotel ainda exalava aquele cheiro fresco de chuva noturna, e o vento cortava pelas frestas das janelas, fazendo a cortina leve balançar como um sussurro. O silêncio do quarto só era quebrado pelo zumbido distante do aquecedor e pelos passos abafados de hóspedes pelos corredores. Marjorie terminava de dobrar uma blusa sobre a cama quando ouviu duas batidas leves à porta.
— Tá pronta? — Sophia perguntou, encostando-se ao batente. O rosto meio escondido pelo capuz do moletom revelava olheiras discretas, como se tivesse dormido pouco ou passado tempo demais pensando.
— Quase. — Marjorie respondeu, prendendo o cabelo em um coque prático, o elástico firme em um gesto automático. — Entra.
Sophia entrou devagar, como quem carrega pensamentos pesados. Sentou-se na ponta da cama, encolhendo os ombros e mexendo nos próprios dedos — um hábito dela quando procurava coragem em gestos pequenos.
— Você já pensou... — começou, hesitando, o olhar baixo. — Se alguém descobre? Sobre você e o Charles?
Marjorie parou por um instante, a pergunta a pegando de surpresa. O coração deu um salto, mas seu rosto manteve uma calma estudada, fruto de semanas vivendo sob olhares atentos. O olhar de Sophia, porém, não carregava julgamento — apenas preocupação genuína.
— Penso nisso. — admitiu, desfazendo o coque só para refazê-lo, uma tentativa inútil de parecer ocupada. — E não é só perigoso... é injusto. Se alguém desconfiar, não vão ver duas pessoas adultas se gostando. Vão dizer que eu tô comprometendo meu trabalho.
Sophia suspirou, e o assunto ficou no ar como uma nuvem pesada.
Mais tarde, já no restaurante do hotel, a tensão cedeu espaço para uma atmosfera mais leve. Lando estava sentado à mesa, rindo sozinho enquanto mexia no celular, a xícara de café à sua frente soltando uma fina nuvem de vapor. Assim que viu as duas, abriu um sorriso caloroso.
— Finalmente! Achei que vocês iam me deixar tomando café sozinho. — ele brincou, empurrando a cadeira para trás para cumprimentar Sophia com um beijo no rosto. Marjorie sentou-se ao lado dele, e Sophia ocupou o lugar em frente. A mesa estava cheia de pães, frutas e sucos — cortesia do hotel, mas Lando parecia mais interessado em conversar do que comer.
— Vocês têm planos pra hoje à noite? — perguntou casualmente, apoiando o queixo na mão. — Porque minha mãe perguntou ontem se vocês não queriam jantar lá em casa. Ela disse que faz tempo que não vê vocês.
Sophia sorriu, surpresa.
— Sua mãe é um amor, mas... certeza que não vamos atrapalhar?
— Vocês? — ele riu, balançando a cabeça. — Vocês são praticamente de casa. A Marj já sobreviveu até a uma tarde inteira com minha avó contando histórias da infância do meu pai, lembra?
— Como esquecer. — Marjorie sorriu, divertida, lembrando-se do chá interminável e das fotos emolduradas por toda a sala. Havia algo reconfortante no fato de os Norris a tratarem com tanta naturalidade, como se ela sempre tivesse feito parte da vida deles.
O celular vibrou sobre a mesa, e ela o puxou discretamente. A tela se iluminou com uma mensagem:
Charles Leclerc
09:17
Bom dia, chérie. Imagino que esteja com Sophia e o Lando. Se não for pedir muito... me guarda um lugar na sua agenda quando eu chegar. Mal posso esperar para te ver.
As palavras de Charles vieram acompanhadas de um emoji simples — um sorriso discreto, só para ela. Marjorie sentiu um calor percorrer o peito, um contraste súbito com o ambiente iluminado pelo sol tímido que entrava pela janela. Ela digitou rápido, com cuidado para não chamar atenção:
