Mônaco tinha um ritmo diferente. Mesmo para alguém acostumado a chamá-la de casa, havia algo naquela semana que fazia tudo parecer mais lento — menos barulho, menos cobrança, menos necessidade de ser qualquer coisa além do que se era.
O apartamento de Charles acordou cheio de vida. Não era novidade ver gente espalhada pela sala, risadas ecoando da cozinha, passos descalços indo e vindo como se aquele espaço fosse compartilhado por todos. Em Mônaco, sempre foi assim — amigos entrando sem cerimônia, família presente, casa aberta. Marjorie estava sentada no sofá, café nas mãos, observando tudo com um sorriso tranquilo.
— Você dormiu bem? — Pascale perguntou, passando por ela e ajeitando distraidamente uma almofada.
— Dormi — Marjorie respondeu. — Muito.
Pascale sorriu daquele jeito calmo, atento. O quão surpresa a mulher ficou ao saber pelo filho que eles estavam mais próximos.
— Dá pra ver.
Charles apareceu logo depois, cabelo bagunçado, camiseta larga, claramente fora do modo "piloto".
— Café acabou? — perguntou.
— Só se você demorou demais — Lorenzo respondeu da cozinha — Arthur riu, encostado no balcão.
— A casa não funciona sem você, mas tenta fingir que sim.
Charles revirou os olhos, mas riu. Quando passou por Marjorie, deixou a mão descansar por um segundo no ombro dela — natural, automático. Nada que chamasse atenção. Nada que precisasse ser explicado. Os amigos chegaram pouco depois.
Lando foi o primeiro a entrar, como sempre.
— Então é isso — disse, jogando-se no sofá. — Semana de folga. Em casa. Péssima ideia, claramente.
— Pode ir embora se quiser — Marjorie respondeu, rindo.
— Nunca — ele retrucou. — Eu vivo pra isso.
O dia passou fácil.
Almoço improvisado, conversa jogada fora, histórias repetidas de corridas passadas, risadas altas. Emma e Sophia sentadas no chão, Carlos gesticulando demais, George observando tudo com aquele ar tranquilo. Charles estava diferente.
Mais presente. Mais solto. Não parecia alguém contando horas ou pensando no próximo compromisso. Estava ali. E Marjorie percebia.
Quando o sol começou a baixar, os amigos começaram a se despedir aos poucos. Um a um, promessas de se verem depois, planos soltos, abraços longos.
— A gente se fala — Emma disse, piscando para Marjorie.
— Aproveita — Sophia completou. — Vocês merecem.
Quando a porta se fechou pela última vez, o apartamento ficou em silêncio.
Não vazio.
Silencioso.
Charles encostou na bancada da cozinha, respirando fundo.
— Eu gosto quando fica assim — comentou.
— Eu também — Marjorie respondeu. — Parece... real.
Eles passaram a semana daquele jeito.
Acordando sem despertador.
Café lento.
Compras no mercado da esquina.
Conversas que começavam sem assunto e terminavam em confissões pequenas.
Dormiam juntos. Não sempre colados. Às vezes apenas próximos, pés se tocando, presença suficiente para acalmar. Era ali que tudo se intensificava.
Numa dessas noites, sentados na varanda, Mônaco iluminada diante deles, Charles ficou em silêncio por mais tempo que o normal.
