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33. Viva la vida

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O sol já começava a descer sobre as montanhas austríacas quando o paddock foi invadido por convidados, patrocinadores e jornalistas. O clima era de comemoração. No lounge da McLaren, champanhe já circulava entre as mesas, mecânicos ainda com as roupas suadas brindavam alto.

Marjorie, por outro lado, mantinha a postura discreta de sempre. Cuidava para que Lando cumprisse a agenda pós-corrida, organizando entrevistas e filtrando pedidos da imprensa. Mas por dentro, a adrenalina ainda não tinha baixado.

— Fala pra eles que eu preciso de dez minutos. — Lando pediu, já exausto, inclinando-se para ela.

— Dez minutos viram vinte. Mas tudo bem, vou segurar. — respondeu, apoiando o tablet contra o quadril — Ele sorriu, abrindo espaço entre os fãs que gritavam seu nome. O cansaço era real, mas os olhos brilhavam como os de um garoto que acabara de realizar um sonho. Era bom demais vencer.

Do outro lado do paddock, Charles enfrentava a mesma rotina. Os flashes eram constantes, o assédio, inevitável. Mas havia momentos em que sua atenção escapava. Em meio a tantas mãos que o cumprimentavam, procurava um rosto específico. Um coque elegante, um olhar firme.

E encontrava. Sempre encontrava.

Marjorie percebeu quando seus olhares se cruzaram pela terceira vez em poucos minutos. Fingiu olhar para o celular, mas a curva discreta no canto da boca a denunciava.

— Vai me contar ou vai continuar disfarçando? — Sophia sussurrou, se aproximando.

— Contar o quê? Já contei tudo — Marjorie respondeu sem levantar os olhos.

— Você sabe. Esse joguinho de olhares não engana ninguém com meia dúzia de neurônios — Marjorie riu, mas manteve o tom baixo.

— Não é um joguinho. É... complicado.

— Complicado costuma ser o código universal para "vale a pena". — Sophia piscou, antes de ser chamada por George para uma foto improvisada.

Marjorie respirou fundo, ajeitando a postura. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, Charles daria um jeito.

Já passava das oito da noite quando a maioria dos convidados começou a deixar o paddock. O lounge da McLaren esvaziava lentamente, e Lando, finalmente liberado, apareceu ao lado dela com um copo de energético.

— Sobreviveu? — ele perguntou, desabando no sofá.

— Eu sempre sobrevivo. É você quem me dá trabalho. — ela rebateu, rindo — Ele fechou os olhos por um instante, relaxando os ombros.

— Hoje foi bom. Tipo, muito bom. E eu vi você sorrindo lá na mureta. Não tenta negar.

— Profissionalismo. — ela respondeu de imediato, mas a memória da corrida voltou como um relâmpago. Lando abriu os olhos lentamente e a encarou.

— Profissionalismo nada. Você tava feliz de verdade. Eu conheço esse sorriso. Ele vai te roubar de mim.

Marjorie desviou o olhar, mexendo na pulseira do crachá. Revirou os olhos e riu.

Do lado de fora, Charles caminhava pelos corredores quase desertos do paddock. Já não havia câmeras, apenas alguns funcionários recolhendo equipamentos. O silêncio contrastava com a explosão de algumas horas atrás. Ele parou diante da entrada lateral do lounge da McLaren. Já com a chave do carro na mão, pronto pra ir embora e se pudesse acompanhado. 

— Charles? — o nome escapou num tom baixo, quase um segredo — Ele sorriu, cansado mas genuíno.

— Vim ver se você tinha um minuto... ou dois.

Lando, do sofá, ergueu as sobrancelhas em silêncio. Olhou da assistente para o piloto monegasco, depois voltou a beber, como quem já entendia mais do que deveria.

Marjorie hesitou por um segundo, mas abriu espaço.

— Só um minuto, Leclerc. — disse, tentando soar firme.

Charles entrou, os olhos fixos nos dela, como se todo o resto fosse ruído. A tensão era palpável. Não havia imprensa, não havia protocolo. Apenas eles dois. E o Lando. 

— Eu vou... deixar vocês dois resolverem essa pauta. — disse, com um meio sorriso maroto, antes de sair discretamente. A porta se fechou, e o silêncio caiu como uma cortina.

Charles deu um passo à frente.

— Agora não tem rádio, não tem câmera. Só eu e você. — a voz saiu baixa, firme, carregada de algo que ela vinha tentando ignorar desde a primeira mensagem daquela manhã — Marjorie respirou fundo, buscando forças para não ceder tão fácil.

— E o que exatamente você quer, Leclerc? — Ele riu de canto, aquele sorriso que parecia desenhado para desmontá-la.

— Quero que você pare de me responder como assessora. Só por um momento.

Marjorie cruzou os braços, tentando manter a compostura diante da intensidade com que Charles a olhava.

— Você sabe que isso é uma péssima ideia, não sabe? — ela murmurou, erguendo uma sobrancelha.

— Péssima? — ele deu um passo mais perto, o tom carregado de ironia suave. — Eu chamaria de inevitável — Ela mordeu o lábio, lutando contra o sorriso que ameaçava escapar.

— Você devia estar comemorando com a sua equipe, Leclerc.

— E você devia estar comemorando com a sua. — ele rebateu rápido, os olhos descendo por um segundo até a boca dela, antes de voltar para os dela. — Mas aqui estamos.

Marjorie respirou fundo, sentindo o coração acelerar.

— Eu avisei... você é distração — Marjorie riu baixo, inclinando-se ligeiramente.

— Engraçado, eu ia dizer a mesma coisa.

O silêncio que se seguiu foi denso, carregado. Era como se o mundo lá fora tivesse desaparecido — nenhum motor, nenhuma voz, nenhum barulho. Só eles. Ele hesitou por um instante, como se ainda buscasse permissão. Marjorie não se moveu. Não afastou. Os olhares se encontraram uma última vez antes que os lábios finalmente se tocassem. Não foi um beijo urgente, mas firme, esperado. Um segredo sussurrado em pele e respiração. Um reconhecimento do que já estava acontecendo há dias, talvez semanas, mas que ambos fingiam não notar.

Quando se afastaram, Marjorie ainda mantinha os olhos fechados por um segundo a mais, como se quisesse prolongar aquele instante. Charles sorriu, satisfeito com o silêncio confortável que se formou.

— Bom... isso definitivamente não tava no briefing da corrida. — ela disse por fim, abrindo os olhos e tentando disfarçar o rubor.

— Algumas estratégias não precisam estar no papel. — ele respondeu, provocativo, e ela riu, balançando a cabeça — Antes que qualquer outro passo fosse dado, a porta se abriu de repente.

— E aí, casalzinho, bora jantar? — Lando apareceu com o boné virado pra trás e um sorriso maroto. Parou, olhando de um para o outro, e ergueu as mãos. — Relaxa, não vi nada. 

— Você nunca ouviu nada. — Marjorie rebateu, tentando recuperar o tom profissional.

— É, é... — ele riu, balançando o dedo como se soubesse muito bem. — Mas sério, tô chamando todo mundo. Sophia já avisou o George, Carlos também vem. Bora encerrar esse domingo direito.

Charles ergueu as sobrancelhas, como quem aceitava a interrupção sem resistência.

— Justo — Marjorie ajeitou o blazer, respirando fundo para retomar o equilíbrio.

— Jantar, então. — confirmou.

Enquanto saíam juntos pelo corredor quase vazio, Charles deixou a mão roçar discretamente na dela, um gesto rápido, imperceptível para qualquer um que olhasse de fora. Mas suficiente para que Marjorie sentisse o arrepio de uma certeza se instalar: algo novo começava ali.

E, por mais que tentassem manter o segredo, ela sabia — seria cada vez mais difícil esconder. Mas era necessário.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora