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39. Lover

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Charles passava os dedos pela borda da taça já servida, encarando o reflexo do vinho. O relógio em cima da mesa parecia andar mais devagar que o normal. O quarto estava arrumado, o serviço de quarto já entregue, mas nada parecia suficiente para distrair a ansiedade que sentia. O coração dele acelerava só de imaginar os corredores silenciosos do hotel, a cada passo que ela poderia estar dando naquela direção.

E então, três batidas discretas na porta.

Charles quase derrubou a taça ao se levantar de tão rápido. Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e só então girou a maçaneta.

Marjorie estava ali, abraçada ao próprio casaco, os olhos castanhos brilhando num misto de timidez e expectativa.
— Bonsoir. — ele disse, num sussurro carregado de carinho.

— Oi… — Marjorie sorriu, um sorriso pequeno, quase tímido. — Espero não ter demorado.

Charles balançou a cabeça. Ele abriu espaço, e ela entrou devagar, como quem atravessa uma fronteira silenciosa. O quarto tinha o aroma suave do vinho aberto e da comida ainda quente. Marjorie largou o casaco sobre a poltrona, olhando em volta.

— Não acredito que você preparou tudo isso. — comentou, surpresa. — Achei que ia ser só um jantar improvisado…

— É só um jantar improvisado. — ele rebateu com um meio sorriso. — Mas com você, eu não consigo deixar ser simples.

Marjorie baixou o olhar, tentando conter o rubor que subia às bochechas. Aproximou-se da mesa, passando os dedos pela borda do prato.
— Você é terrível. Faz parecer que eu devia ter me arrumado muito mais do que isso.

Charles se aproximou, olhando-a nos olhos.
— Você não precisa de mais nada. Tá linda.

A frase, dita sem hesitação, fez o estômago dela revirar. Sentaram-se, e a princípio, falaram de coisas banais: viagens, histórias antigas, lembranças engraçadas. Mas aos poucos, a conversa foi se estreitando até virar confidências baixas, ditas como segredos partilhados apenas ali, longe do mundo.

— É estranho… — Marjorie comentou, girando a taça entre os dedos. — Eu te vejo o tempo todo em frente às câmeras, cercado de gente… mas aqui parece que é a primeira vez que estou realmente te conhecendo. E por Deus, a gente se conhece a muito tempo.

Charles a observou em silêncio por um segundo, como se gravasse cada detalhe dela.
— Talvez porque só aqui eu posso ser eu mesmo. Com você.

Depois de comerem algumas poucas garfadas e deixarem o prato de lado, Charles puxou a garrafa e a taça dela, levando-os até o sofá perto da janela. O clima estava mais íntimo ali: luz amarelada, cortinas fechadas, um silêncio quase confortável do corredor do hotel. Marjorie se acomodou primeiro, cruzando as pernas e ajeitando com um gesto automático. Charles sentou-se ao lado, tão próximo que os ombros quase se tocavam. Serviu mais um pouco de vinho, entregou a taça a ela e ergueu a própria.

— À complicação que a gente decidiu arrumar pra vida. — ele brindou com ironia, os olhos brilhando.

Ela riu, batendo de leve a taça na dele.
— Você fala como se tivesse sido uma escolha consciente.

— Não foi? — ele provocou, levando o copo aos lábios. — Olhamos um pro outro e… pronto. — Marjorie deu uma risada curta, apoiando o queixo na mão.

— Engraçado. A gente se conhece há tanto tempo. Eu vi você começar, vi suas vitórias, suas derrotas, vi até você com outras pessoas… e mesmo assim, nunca imaginei…

— Que um dia ia ser eu aqui com você? — ele completou, com um sorriso enviesado.

— Que um dia ia ser você. — ela confirmou, num sussurro.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora