Marjorie abriu o cardápio com cuidado, mais pra ter algo onde fixar os olhos do que por interesse real. O cheiro bom que vinha da cozinha já dizia que qualquer coisa seria maravilhosa. Por um momento, o único som foi o da lenha na lareira, misturado ao tique-taque de um relógio antigo pendurado perto do balcão. Ela sentiu os ombros relaxarem alguns milímetros.
— Você parece menos tensa — Charles comentou, baixando o cardápio e apoiando os antebraços sobre a mesa.
— Estou tentando parecer menos tensa — ela corrigiu, com um meio sorriso. — É diferente.
— Tá funcionando. — Ele inclinou a cabeça levemente. — Ou pelo menos... parece que você confia em mim o bastante pra sentar aqui.
Ela hesitou, os dedos ainda segurando o cardápio com força.
— Eu confio em você — disse, sem desviar o olhar. — Esse nunca foi o problema.
— Então qual é? — perguntou ele, baixinho.
A pergunta pairou entre os dois, como uma corda esticada demais. E ela decidiu que não queria mentir.
— O problema é que... — Ela inspirou fundo. — Se fosse qualquer outra pessoa, seria só um jantar. Mas você... é você. E tudo que vem com isso. Tudo que as pessoas vão querer transformar.
Charles ficou em silêncio, observando como se estudasse cada detalhe da expressão dela. Depois, com uma calma que a desarmou, estendeu a mão por sobre a mesa, palma virada pra cima. Não foi um gesto invasivo — foi um convite. Ela ficou alguns segundos olhando aquela mão. Pensou em tudo que poderia dar errado, em tudo que já dava errado só pelo fato de estar ali. Mas, no fim, colocou a própria mão sobre a dele.
O contato era simples, quente, mas fez seu coração disparar tanto que precisou fechar os olhos por um instante.
— Eu não quero complicar a sua vida — Charles disse, a voz baixa. — Eu só queria... poder conhecer você fora desse circo todo que a mídia pode transformar. Sem rótulos. Sem manchetes. Só você.
Ela engoliu em seco, tentando encontrar uma resposta que não soasse grandiosa demais.
— Eu não sei se sei ser só eu. — confessou, com um sorriso.
Ele apertou de leve seus dedos.
— Então a gente pode começar devagar. — O tom dele era tão gentil que doía. — E hoje... é só um jantar. Amanhã você decide se quer outro.
Ela respirou fundo, sentindo o peito se aquecer e apertar tudo ao mesmo tempo.
— E se eu quiser outro? — perguntou, baixinho, sem soltar a mão dele.
Charles sorriu. E não foi aquele sorriso público, de piloto sorridente para câmeras. Foi outro — o que quase ninguém via.
— Então vai ser o começo de alguma coisa boa.
O silêncio voltou, mas era diferente. Um silêncio que tinha paz. Marjorie passou o polegar de leve sobre o dorso da mão dele, num gesto que nem percebeu que fazia. E, por um instante, esqueceu que havia mundo lá fora. Lucette apareceu outra vez, agora trazendo duas taças e uma garrafa de vinho tinto. Depositou tudo com cuidado na mesa, mas antes que pudesse se afastar, Charles ergueu uma mão num gesto meio constrangido.
— Ah, Lucette... só uma taça pra ela. Eu fico na água.
— Água? Você ficou esquisito, Charles.
— Classificação amanhã cedo — ele explicou, com um sorriso quase de desculpas.
Lucette balançou a cabeça, mas acabou rindo.
