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30. Company

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A reunião transcorreu sob uma fina camada de tensão escondida por formalidades. Marjorie anotava os principais pontos no tablet, mas sua mente vagava. Duas cadeiras ao lado, Charles parecia absorto no documento à frente, embora vez ou outra seu olhar fugisse, rápido demais, na direção dela. E ela percebia. Sempre percebia.

Quando a reunião terminou, Carlos foi o primeiro a se levantar. Cumprimentou todos com um aceno breve, mas ao passar por Charles, trocou um olhar rápido, carregado de aviso: comporte-se. Lando saiu logo em seguida, lançando a Marjorie um meio sorriso cúmplice. Não precisava dizer nada.
Ela recolhia os papéis com cuidado quando sentiu a presença antes mesmo de vê-lo. O perfume amadeirado familiar chegou antes.

- Você tem cinco minutos? - a voz de Charles soou baixa, quase cautelosa.

Marjorie olhou em volta. Ainda havia gente circulando, olhares dispersos, câmeras mais longe - mas nunca longe o suficiente. Apenas assentiu e seguiu com ele, mantendo uma distância discreta enquanto saíam por uma das laterais do paddock, onde o movimento era menor. Pararam próximos aos containers de apoio. Ele encostou casualmente na lateral metálica, mãos nos bolsos, como se aquilo fosse só mais uma conversa qualquer entre conhecidos de longa data. E era assim que deveria parecer.

- Isso é uma péssima ideia - disse ela, sem rodeios, mantendo a expressão neutra.

- Então por que você veio? - ele devolveu, com um meio sorriso.

Ela hesitou. Tinha inúmeras justificativas prontas, todas racionais, todas inúteis. No fim, só disse a verdade:

- Porque você me faz esquecer de pensar.

O olhar dele suavizou. Não havia aproximações, nem gestos impulsivos. Só a tensão contida de quem sabe que precisa manter distância. Pelo menos ali.

- Ontem não foi planejado. Mas foi real - disse ele, sério. Ela assentiu levemente.

- E hoje? - perguntou. - O que é hoje?

- Hoje é só um dia em que eu queria te ver de novo - respondeu, a voz baixa, sincera.

Ela respirou fundo. O ar gelado entrou nos pulmões como um lembrete do mundo ao redor.

No motorhome da McLaren, Lando observava pela janela, escondido atrás da cortina, com um energético na mão.

- Eles acham que estão sendo discretos - comentou, divertido.

Sophia, que aparecera silenciosamente ao seu lado, olhou na direção que ele apontava. Viu apenas duas silhuetas conversando à distância. Nenhum toque. Nenhuma aproximação evidente.

- Estão sendo discretos. Até demais - ela corrigiu. - Mas eu entendo. Se alguém fotografa...

- Já era os dias de paz - Lando completou. - Só a gente sabe mesmo.

Sophia cruzou os braços.

- Você acha que ela tá entrando numa encrenca? Não com ele. Mas com o mundo que cerca ele. Sabe?

Lando assentiu, sério pela primeira vez naquele dia.

- Ah Soph, é complicado. Mas eu quero que eles deem certo, ambos merecem.

.

Mais tarde, no pit wall da McLaren, Marjorie voltava ao trabalho. A profissional impecável. Tablet nas mãos, fones ao lado, olhos nos dados. Mas havia algo sutil no jeito como ela mordia o canto do lábio, ou como o olhar demorava meio segundo a mais nas mensagens no celular.

Charles Leclerc
13:13
"Boa sorre. Sei que não é você quem entra na pista... mas é como se fosse."

Ela disfarçou um sorriso, escondendo o celular sob a prancheta, e respondeu rapidamente

13:14
"Obrigada. Mas cuidado. Não quero ver seu nome no telão por erro bobo."

Charles Leclerc
13:14
"Não prometo nada... você tem sido uma distração perigosa."

Do outro lado do paddock, Charles vestia o macacão da Ferrari com a concentração que o tornava quase inatingível. Mas havia um brilho novo nos olhos - o tipo que nem a viseira conseguia esconder. Carlos apareceu ao lado, já pronto para a sessão.

- Preparado, amante secreto? - provocou, em tom baixo.
- Você é insuportável - Charles resmungou, embora desse risada.

- E você é péssimo em fingir. Sorte sua que só a gente repara.

Ele não respondeu. Apenas respirou fundo.

Na pista, os carros voavam. Cada curva era uma dança precisa entre risco e controle. Marjorie acompanhava os dados em tempo real, anotava as informações para o piloto e conferia o comportamento de Lando na volta rápida. A concentração era total - ou quase. No fundo, seu coração batia em dois ritmos. Um para o trabalho e melhor amigo. E outro, silencioso, para o carro vermelho número 16.

Na última tentativa, Charles cravou uma volta perfeita. O rádio da Ferrari anunciou o tempo com entusiasmo:

- "Charles, that's P1. Incredible job. Pole position!"

A equipe vibrava ao fundo, mas ele mal ouviu. O som do próprio sangue parecia mais alto. Ele respirou fundo no cockpit, olhando para o céu da Áustria por um segundo a mais. Só então, permitiu-se sorrir.

Na McLaren, Marjorie sorriu também - discreta. Ninguém ali entenderia o motivo. Mas Lando, que tinha acabado de voltar para o box com um sólido P4, entendeu na hora. Tirou o capacete e se aproximou dela, ainda ofegante, os cabelos molhados de suor e adrenalina.

- Uau. Que sessão - comentou, pegando a garrafa d'água que ela estendia.

- Excelente volta. Quase chegou no top 3.

- "Quase" é uma palavra cruel - ele brincou, e a fez rir.

Os dois se sentaram por alguns minutos no canto mais calmo do box. Marjorie revisava algumas anotações no tablet, enquanto Lando bebia água e espiava de canto.

- Ele mandou bem, né? - perguntou, sem olhar diretamente pra ela - Ela não respondeu de imediato. Apenas assentiu.

- Foi impecável.

- Você vai mandar mensagem?

Ela mordeu o canto da boca, como se ponderasse.

- Talvez. Só algo simples. Parabéns, boa volta... nada demais.

Lando deu um sorriso de canto.

- Claro. Super discreto. Do jeitinho de vocês.

Ela olhou pra ele com uma expressão que misturava afeto e leveza.

- Obrigada por não me julgar.

- Eu julgo. Mas com amor.

Ela riu e voltou o olhar para o tablet. Alguns minutos depois, quando todos já voltavam à rotina, ela pegou o celular, digitou rápido e enviou.

16:47
"Parabéns pela pole. Você fez parecer fácil."

A resposta chegou quase instantaneamente.

Charles Leclerc
16:48
"Quem dera, mas amanhã tem mais.
Ainda vejo você hoje?"

Ela travou o celular, respirou fundo, e voltou ao trabalho. Precisa pensar. Não queria que tudo fosse rápido demais.

Ao redor, jornalistas corriam, mecânicos gritavam, os carros eram recolhidos. O mundo girava a mil por hora. Mas dentro dela, tudo acontecia num compasso diferente.

Silencioso. Cauteloso.

E completamente real.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora