O táxi preto cruzou as curvas de Monte Carlo com uma tranquilidade quase simbólica. O mar estava calmo, o céu limpo, e mesmo que fosse apenas mais um dia útil no Principado, Mônaco tinha aquele brilho dourado que fazia tudo parecer parte de um filme europeu.
Marjorie desceu em frente ao prédio de Lando, o blazer creme sobre os ombros e os óculos escuros escondendo o cansaço da viagem. O porteiro já a conhecia — deu bom dia com um sorriso discreto e acionou o elevador sem que ela precisasse pedir.
No apartamento, Lando estava largado no sofá, cabelo bagunçado, usando uma camiseta do Tottenham e meias de cores diferentes.
— Finalmente! — exclamou ele, jogando o celular de lado. — Achei que ia ter que implorar por ajuda.
— Você pediu ajuda ou uma ressurreição? — brincou ela, largando a bolsa na poltrona. — Você parece emocionalmente derrotado.
— Eu tô. Pelo oque eu entendi sua estagiária me mandou um cronograma de compromissos com três fusos horários diferentes. E eu juro que um deles nem existe.
— Deixa eu ver isso. — Ela pegou o tablet que ele estendia.
— Ok... isso aqui é um caos organizado. Organizado por alguém com insônia e cafeína demais, mas dá pra consertar.
Enquanto digitava, Lando a observava com aquele sorriso de quem sabia mais do que dizia.
— Sabe que o Charles vai passar aqui, né?
— Sabia que tinha alguma pegadinha — disse ela sem levantar os olhos. — E você vai fingir que é coincidência?
— Ele me pediu um jogo que deixou aqui. Só isso. Juramento de amigo.
Ela ergueu uma sobrancelha, sem comentar. Continuou ajustando os compromissos no tablet como se aquilo fosse normal. Como se o nome de Charles Leclerc não causasse nada nela.
Três minutos depois, a campainha tocou.
— Claro que ele é pontual — murmurou ela, e Lando deu uma risadinha culpada.
Charles entrou com os cabelos levemente bagunçados, camiseta cinza clara, calça de moletom preta e aquele olhar atento que sempre parecia decifrar mais do que deveria.
— Bonjour. — Ele sorriu. E olhou direto pra ela.
— Oi — respondeu Marjorie, tentando manter o tom neutro. Mas havia algo ali. Como se o ambiente tivesse ficado mais estreito, mais denso.
— O jogo tá em cima da mesa — disse Lando, se levantando. — Eu vou pegar uma água. Vocês se... cumprimentem à vontade.
Charles cruzou o olhar com Marjorie por mais tempo do que o necessário.
— Você chegou hoje? — perguntou ele, parando a poucos passos dela.
— Há pouco. Já trabalhando, como sempre.
— Sempre linda.
Ela riu, sem desviar os olhos da tela.
— Isso foi gratuito.
— Foi honesto.
Ele se aproximou um pouco mais, ainda respeitando o espaço, mas o suficiente para que ela sentisse o perfume leve que já reconhecia.
— E... como foi em Florença? — perguntou, agora com um tom mais suave.
— Bom. Vi meus pais, prometi levá-los a Monza. Me senti filha por uns dias, sabe?
— Eu sei. Também andei sendo só filho essa semana. Deu saudade de casa.
O relógio marcava 23h17 quando Marjorie afastou os olhos da tela do computador pela primeira vez em quase uma hora. Ela estava sentada no canto favorito do apartamento de Lando — a poltrona branca perto da janela, com vista para a marina de Mônaco. Uma playlist instrumental preenchia o fundo como uma trilha sutil para a noite produtiva. Ela estava sozinha.
