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43. Broken

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O domingo amanheceu silencioso demais. Não no paddock — ali, tudo era barulho, movimento, urgência — mas dentro de Marjorie. Havia algo inquieto, um pensamento insistente que ela vinha empurrando para depois desde a noite anterior. E surgiu assim do nada.  Dia de corrida não era dia para sentimentos mal resolvidos. Ela caminhava ao lado de Lando em direção ao box da McLaren quando ele quebrou o silêncio.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse, casual demais para não ser sério.

— Sempre — ela respondeu, ajustando o tablet nos braços — Lando hesitou por um segundo.

— Você já pensou... — ele respirou fundo — em deixar isso público? — Marjorie parou de andar.

— Isso o quê? — perguntou, embora soubesse exatamente.

— Você e o Charles — O nome dele soou diferente naquele contexto. Mais pesado.

— Por que isso agora? — ela perguntou, baixando a voz.

— Porque eu te conheço — Lando respondeu. — E porque eu vejo o jeito que você olha pra ele. E o jeito que ele olha pra você. — Ele deu de ombros. — E porque uma parte de mim quer te proteger antes que isso vire algo grande demais.

Marjorie respirou fundo.

— Lando... — começou — eu nem fui pedida em namoro — As palavras ficaram entre eles, honestas demais para serem ignoradas. Lando piscou, surpreso.

— Ah.

— Eu sei o que a gente é — ela continuou. — Sei o que eu sinto. Mas tornar algo público não é só sobre sentimento. É sobre escolha. Sobre conversa. Sobre estar pronto.

Ele assentiu lentamente.

— Desculpa. Eu não quis pressionar.

— Eu sei — ela respondeu, mais suave agora. — E não quero pensar nisso hoje. — Ela ergueu o olhar para ele. — Hoje é sobre você. Sobre essa corrida.

— Então vamos ganhar isso — disse. — Depois a gente pensa no resto.

Do outro lado do paddock, Charles se preparava para a corrida. Ajustava o macacão, ouvia instruções, mas sentia. Sempre sentia quando algo estava fora do lugar. Quando viu Marjorie alguns metros à frente, falando com Lando, percebeu a tensão nos ombros dela. Nada explícito. Nada visível para quem não a conhecia. O olhar deles se cruzou por um segundo. Ela sorriu — profissional, controlada. Ele respondeu do mesmo jeito.

Mas algo ficou suspenso ali.

A corrida começou. Silverstone vibrou.

Lando largou bem. Cada volta era uma mistura de controle e emoção. Marjorie estava no pit wall, concentrada, postura impecável, coração acelerado.

He's flying, — alguém comentou no rádio. Ela não respondeu. Só acompanhou. Volta após volta, a vitória começou a parecer possível. Real. Inescapável.

Quando Lando cruzou a linha de chegada em primeiro, o mundo explodiu.

P1! P1! — o rádio gritou.

Marjorie levou a mão à boca, os olhos marejados. Emma abraçou Sophia. Charles observava tudo com um sorriso sincero. Orgulhoso. Feliz pelo amigo.

Lando saiu do carro em êxtase.

— Eu consegui! — gritou. — Em casa!

O paddock já estava quase vazio quando Charles finalmente encontrou um momento para respirar. Silverstone tinha ficado para trás — a vitória do Lando, a euforia coletiva, os abraços, as fotos. Agora restava o depois. Sempre o depois.

Ele sabia onde encontrá-la. Marjorie estava sentada no mesmo banco discreto de sexta-feira, o tablet desligado ao lado, o olhar perdido em algum ponto distante. Não parecia triste. Parecia... pensativa. Charles se aproximou devagar, como se não quisesse assustar o momento.

— Ei — disse, baixo.

Houve um silêncio confortável antes de qualquer palavra. Um daqueles silêncios que só existe quando duas pessoas já se conhecem além do superficial.

— Você sumiu — ela comentou.

— Eu precisava... organizar a cabeça — ele respondeu com honestidade. — Posso sentar? — Ela assentiu.

Ficaram lado a lado, os ombros quase se tocando. Não havia câmeras ali. Não havia necessidade de fingir — só de ser cuidadoso.

— Lando falou comigo hoje — ela disse, quebrando o silêncio. — Sobre a gente — Charles respirou fundo, mas não desviou o olhar.

— O que você disse?

— Que eu não queria que isso fosse pauta num dia como hoje. — Ela fez uma pausa. — E que... isso não era um namoro, pelo menos ainda não.

As palavras não carregavam cobrança. Apenas verdade. Charles sentiu o peso delas imediatamente.

— Eu sei — disse. — E concordo, mas desde aquela noite... tudo ficou mais intenso pra mim. E eu não sou bom em acompanhar a velocidade das coisas quando elas envolvem sentimento.

Ela riu de leve, compreensiva.

— Pra mim também mudou — admitiu. — Não foi só físico. Foi... a forma como você ficou. Como a gente ficou — Charles passou a mão pelo rosto, pensativo.

— Eu passei anos da minha vida achando que precisava controlar tudo. — Ele a olhou. — E aí você aparece... e de repente eu tô pensando em você no carro, no hotel, no silêncio entre uma corrida e outra.

Marjorie sentiu o coração apertar.

— Eu tenho medo — ela confessou. — Não de você. Mas do quanto isso importa.

— Eu também. — Ele respirou fundo. — É por isso que eu queria te perguntar uma coisa. Com calma. Sem pressão.

Ela o encarou, atenta.

— A semana de folga... — ele começou. — Eu vou ficar em Mônaco — Ela arqueou a sobrancelha, já entendendo.

— Lando também vai — ele continuou. — Todo mundo espera isso. Não levanta suspeita. — Ele hesitou. — Eu queria que você fosse. 

— Pra quê exatamente? — ela perguntou, suave.

— Porque desde aquela primeira vez, eu sinto que algo cresceu. E eu não quero fingir que não tá ali. A gente vive nessa correria. 

Marjorie ficou em silêncio por alguns segundos, processando.

— Você sabe que isso não vai ser só leveza — ela disse. — Vai ter conversa difícil. Limite. Realidade.

— Eu sei — Charles respondeu imediatamente. — Mas eu prefiro isso do que continuar empurrando o que a gente sente pra depois — Ela o observou com atenção. O jeito sério. Aberto. Vulnerável.

— Então deixa eu ser honesta também — disse. — Eu não preciso de promessas. Mas eu preciso saber que você entende o risco que isso é pra mim.

— Eu entendo — Charles respondeu, firme. — E eu não vou te apressar. Só... caminhar com você. No ritmo que der — Ela sorriu, finalmente mais leve.

— Caminhar eu consigo — Ele riu.

— Então vem comigo pra Mônaco.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, eles não estavam apenas reagindo ao que sentiam.

Estavam escolhendo.

The 1, CHARLES LECLERCHistórias para pegar e não largar. Descubra agora