O carro seguia pelas ruas ainda molhadas, o silêncio da cidade contrastando com a bagunça organizada das últimas horas. Marjorie apoiava a testa na janela, os olhos pesados, mas sem sono de verdade. Ao lado dela, Lando mexia no celular, mas parou quando viu que ela bocejou pela quinta vez em dois minutos.
— Sério, como você consegue estar exausta e ainda parecer acordada? — ele perguntou, largando o telefone no colo.
— Três cafés e puro instinto de sobrevivência — respondeu, sem abrir os olhos. — Você devia experimentar.
— Prefiro colapsar com estilo — brincou ele, depois ficou em silêncio por alguns segundos. — E aí... tá tudo bem mesmo?
Ela virou o rosto devagar, surpresa pela pergunta repentina, mas não pela intenção por trás dela. Lando sabia ler seus silêncios tão bem quanto suas respostas prontas.
— Tá. Acho que sim — ela respondeu, num tom sincero. — Só... tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
— Tipo... Charles? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você virou vidente?
— Não. Só seu amigo. E o cara que você tem a vida em um tablet, ah e também especialista em detectar quando você está fugindo de si mesma — Ela riu baixinho.
— Não tô fugindo.
— Tá. Mas com charme, então. Isso eu reconheço — ele respondeu, piscando um olho. — Olha, não tô me metendo, juro. Só... cuida de você no processo, tá?
Marjorie assentiu devagar, olhando pra frente. O céu começava a clarear bem no horizonte.
— Obrigada por... isso. Por saber perguntar e depois não insistir demais.
— Esse é o pacote Norris: escuta, piada ruim e ombro disponível — ele estalou os dedos como se vendesse um produto em rede nacional. — Só não me faz ficar em segundo plano, aí é trairagem.
Ela riu de novo, mais solta.
— Você ainda ganha no quesito memes enviados às três da manhã.
— Ufa. Ainda sou insubstituível.
O carro virou uma esquina, e ambos olharam para a entrada discreta do aeroporto à frente.
— Vai ser um longo voo — disse ela.
— E a gente dorme metade — ele respondeu. — Mas se quiser conversar sobre ele... ou sobre qualquer coisa que não envolva pneus e estratégias, eu tô aqui.
Marjorie olhou para ele com um sorriso de gratidão.
— Eu sei. E é por isso que você ainda é meu piloto favorito. Só não espalha, tá?
— Tarde demais.
O paddock estava vivo com o burburinho usual. Técnicos passavam apressados com laptops e pranchetas, repórteres armavam câmeras em frente aos painéis com os logos dos patrocinadores e os fãs se aglomeravam na grade com cartazes, gritando os nomes dos pilotos. O céu de Montreal oscilava entre nuvens pesadas e promessas de sol, como se o clima não tivesse decidido o tom do dia. Marjorie ajeitava o crachá no pescoço enquanto andava ao lado de Lando, conferindo a programação no tablet.
— Você tem entrevista com a Sky daqui a quinze minutos. Depois vem a coletiva com o grupo da FIA e, se não atrasarem, a sessão com a F1TV — ela dizia, prática como sempre.
— Alguma chance de escapar da coletiva? — Lando perguntou, fazendo uma careta.
— Só se a FIA for atingida por um ataque de pombos revoltados.
