Após o encerramento da classificação e as últimas entrevistas no paddock, o sol começava a se inclinar, dourando os trailers e os containers com uma luz suave. A movimentação seguia intensa, mas o peso da responsabilidade já dava espaço para a expectativa da corrida. Marjorie recolhia os últimos documentos de mídia quando ouviu uma voz animada se aproximar:
— Allô, amigos! — George Russell surgiu sorridente, com os cabelos perfeitamente penteados e óculos escuros pendurados na gola da camisa polo.
— Medo do que você vai propor com esse sorriso — disse Lando, cruzando os braços.
— Relaxa, é coisa boa. Conheço um restaurante aqui perto, comida austríaca excelente, ambiente discreto. Acho que a gente merece uma noite sem briefing, sem imprensa e sem cronômetros.
— Você quer socializar? — Carlos zombou, surgindo ao lado com uma expressão desconfiada. — Isso é uma armadilha?
George revirou os olhos.
— Eu sei me divertir, tá? E achei que um jantar decente antes da corrida cairia bem. Vocês topam?
Lando olhou para Marjorie, que fingia continuar ocupada com os papéis, mas sorria de canto.
— A gente topa — respondeu ela, antes que Lando dissesse qualquer coisa.
— Ótimo. Reservo pra oito? — George perguntou, animado.
— Só os de sempre? — Carlos completou, olhando de relance para Charles, que passava ao fundo conversando com um engenheiro.
— Só os de sempre — Lando respondeu com naturalidade.
A mensagem se espalhou entre o grupo e, às 20h30, todos estavam reunidos no restaurante acolhedor indicado por George. Madeira escura, iluminação quente, uma música ambiente quase imperceptível. As mesas de canto foram estrategicamente escolhidas para evitar olhares curiosos.
Marjorie estava sentada entre Lando e Sophia, que havia conseguido se juntar a eles de última hora. Charles, na ponta oposta da mesa, conversava animadamente com George e Carlos, mas de vez em quando os olhos cruzavam os dela — breves, como reflexos.
Enquanto os pratos principais eram servidos e a conversa ganhava ritmo entre o grupo, Marjorie se afastou discretamente da mesa e foi para uma área mais reservada do restaurante — um pequeno corredor com janelas que davam para o jardim externo. Ela encostou-se na parede e tirou o celular da bolsa. Tinha uma chamada perdida de Emma e um “estou viva, mas quero detalhes do caos emocional, por favor” no WhatsApp. Ela respirou fundo, ajeitou os fios soltos de cabelo e retornou a chamada. Emma atendeu na primeira vibração.
— Aí está ela! — disse do outro lado da tela, enrolada num moletom com o cabelo preso em um coque bagunçado. — Me conta tudo. Cadê o beijo? Cadê a culpa? Cadê os olhos brilhando?
— Oi pra você também — Marjorie respondeu, rindo, mas visivelmente cansada.
— Você tem o olhar de quem tá tentando parecer normal e falhando miseravelmente. Ele beijou você?
Marjorie olhou para os lados, certificando-se de que estava sozinha.
— Sim. Ontem. Foi intenso. E hoje a gente... conversou. Tentou ser normal. Mas nada é normal agora, Em.
Emma ficou em silêncio por um segundo, depois apoiou o queixo na mão, observando a amiga pela tela.
— E você? Tá bem?
— Tô confusa. Parte de mim tá aterrorizada, e a outra parte não quer largar isso. Charles é... mais do que eu esperava.
— Você já sabia disso, amiga. Só não queria admitir.
