A casa de Sainz não era muito longe do hotel. Costumavam brincar dizendo que pilotos, por andarem de um país ao outro todo o tempo, não tinham paradeiro, mas na verdade sempre tinham. Lando contou uma vez que o lar dele fazia ele colocar os pés no chão e entender o quanto privilegiado ele era. A casa de Carlos não era pequena, nem muito grande, mas das poucas vezes em que Marjorie esteve ali, sentia o quanto o ambiente era aconchegante.
Tocou a campainha e aguardou a porta ser aberta.
— Mi amor! — Carlos sorriu ao ver a amiga e encarou Enrico, disfarçando a possível cara feia que poderia fazer. — Enrico, que bom que veio! — foi respondido por um breve aceno. Era impressionante quando uma pessoa não fazia questão alguma.
— Simpático — Carlos sussurrou, vendo a amiga rir baixo.
— Você preparou tudo isso? — Marjorie perguntou, olhando a grande mesa posta na sala de jantar.
— Com certeza — Carlos riu. — Óbvio que não, fiz umas ligações e a Catalina, após implorar muito, ficou pra fazer uma janta deliciosa. — Ele sorriu, olhando para a própria.
Marjorie, assim como Enrico, cumprimentou todos ali. Charles levantou a mão e deu um breve aceno, algo constrangedor, Marjorie diria. Era como se algo gigantesco tivesse acontecido, mas nada havia acontecido. Agradeceu mentalmente por Lando convidar alguns da equipe para Enrico não ficar sozinho e se lamentar ou implorar para ir embora cedo. Desde quando tudo isso estava afetando ela?
— Que coisa horrenda — disse Emma, puxando a amiga pela mão enquanto via o namorado indo conversar com alguns companheiros de equipe. Marjorie a encarou sem entender. — Que aceno foi aquele? — Ela riu baixo. — O que deu nele?
— Acho que só está evitando um transtorno — Marjorie respondeu, sentindo uma pontada pequena no coração. Ela se sentia incomodada com aquilo, não queria aceitar que Charles Leclerc estava mexendo com alguma parte dela.
— Ah, que nada a ver — Emma proferiu. — Vamos beber uns drinks. — Puxou a amiga para perto do bar na parte externa da casa, onde se juntaram aos demais amigos que discutiam sobre uma corrida antiga. — Vocês são ou ultrapassados ou ranzinzas — Emma brincou. — Essa história é super antiga, já perdi a conta de quantas vezes o Russell já se dramatizou.
Marjorie riu, era impossível não rir na presença da amiga.
— É sobre a vez da ultrapassagem do Max no Russell? — Charles falou, surpreendendo Marjorie, que olhava concentrada no debate à frente. Ela franziu a testa ao encará-lo. Fazia minutos que ele a cumprimentava com um aceno.
— Desculpa, não queria te assustar — ele tocou no braço dela e sorriu. Marjorie perdeu uns segundos ali.
— Tudo bem — ela sorriu fraco, tentando disfarçar o nervosismo na voz ao olhar nos olhos dele. — E sim, é sobre aquela vez. — Ela riu. — Você tem ideia de quantas vezes ele já se lamentou por isso?
— Eu posso imaginar que quase o mesmo número de vezes que eu também ouvi a lamentação — ele riu. — Você quer um mojito? — Ele ofereceu, como se fosse algo totalmente natural. — Sei que gosta.
Marjorie apenas concordou com a cabeça, surpresa por perceber que Charles observava seus gostos, mesmo sabendo que era também uma bebida que ele gostava. Observou-o pegar dois copos e preparar o drink, como se aquilo fosse algo simples. Lando, à distância, observava, mas não quis interferir. Ele também percebeu, claro, mas preferiu dar espaço para que os dois se conectassem, sem pressionar.
A alegria não durou muito. Logo, Enrico apareceu ao lado de Marjorie, visivelmente frustrado.
— Você não tem alguma mulher por aí? — Enrico proferiu nervoso. — Porque eu só vejo você atrás da minha.
Marjorie odiava confusões. Ficava nervosa, a ansiedade atacava e tudo o que ela não queria era estragar a noite de seus amigos.
— Enrico, chega — Marjorie falou, tentando manter a calma. — Charles me ofereceu uma bebida e eu aceitei. — Ela suspirou. — Simples, nada demais. Não procura coisa onde não existe.
O namorado a encarou, rindo de forma amarga.
— Onde não tem? Por favor, Marjorie. — Sainz se aproximou, como se quisesse impor sua vontade. — Vamos embora.
— Isso você pode ir — Marjorie respondeu, fria, os olhares surpresos dos presentes à sua volta não a afetando. Ela não gostava de se sentir pressionada, uma relação nem deveria ser assim. Sua mãe provavelmente estaria xingando-a se visse tudo o que ela aceitava de um homem. — Eu vou ficar. Na verdade, nem deveria me explicar, mas como sou educada... — Ela suspirou e tirou um fio de cabelo que insistia em cair sobre seus olhos. — Peço que faça o que quiser. Só não me procure mais. Aprenda a conviver comigo como uma colega de trabalho, pois é isso que seremos a partir de hoje. E sabe, chega a ser ridículo eu estar passando por tudo isso.
Emma imediatamente a abraçou, afastando-a da cena. Ela ouviu os resmungos de Enrico, mas não deu chance para que ele falasse mais nada. Sabia e sentia que havia feito o certo, mas isso não significava que não havia doído fazer aquilo.
O término não foi apenas pelo ataque de ciúmes. Foram pelas vezes em que ele a criticava sobre suas roupas, quando a fazia não sair, quando a afastou dos amigos, quando a fez questionar sua própria carreira só porque ele queria crescer profissionalmente. Foram tantas pequenas coisas que se somaram e, quando o nome de Charles Leclerc apareceu, Marjorie percebeu que as coisas não poderiam mais continuar.
— Amiga, vai ficar tudo bem, estou aqui com você — disse Emma, ao entrarem em um dos quartos da casa. Marjorie a abraçou com força, sentindo as lágrimas escorrendo como se a dor se misturasse com um alívio que ela nem sabia que poderia sentir.
Enquanto isso, ainda na área externa, Enrico bateu palmas na frente de Charles e riu.
— Você, com essa carinha de bonzinho, conseguiu. Merecia um Oscar por essa atuação.
Charles deu um passo à frente, sempre mantendo sua calma. Jamais brigaria, ele não era disso.
— Enrico, você perdeu ela sozinho, justamente pelas suas atitudes — ele falou com um olhar tranquilo. — E nos faria um grande favor de fazer o que ela pediu: ir embora.
Ele deu um passo para o lado, dando espaço para Enrico sair. O homem não retrucou, apenas se afastou, saindo da vista de todos.
O coração de Charles palpitava. Ele queria saber como ela estava, obviamente sabia que a última coisa que ela estaria era bem. Sabia que ela amava Enrico, mas ela agora precisava de tempo. Ele preferiu não se envolver, dar o espaço que ela precisava.
— Eu sinto pela minha amiga, mas isso foi absoluto cinema — Norris falava, com um sorriso maroto.
— Lando! — Carlos o repreendeu, sério. — Não é hora.
Carlos sentia-se aliviado por dentro. Assim como todos que conviviam com eles.
— Emma, não vou viver meu término como se fosse um luto — Marjorie riu, enxugando as lágrimas. — É óbvio que dói, mas eu não quero estragar ainda mais a noite de hoje. — Ela se olhou no espelho, decidida. — Já estava tudo tão desgastante, acho que era questão de tempo.
— Eu concordo — Carlos respondeu, parado no batente da porta. — Você está bem?
— Vou ficar. Me desculpa por toda essa confusão, meu Deus mal chegamos e isso acontece — Marjorie sorriu, um pouco mais tranquila, e o abraçou.
— Você não precisa se desculpar por nada — ele beijou o topo da cabeça dela, sorrindo em forma de conforto. — Estamos aqui pra você.
O término de algo nunca seria fácil, mas Marjorie sabia que foi o certo a ser feito. Havia quebrado barreiras que só machucariam ambos com o tempo. Agora, ela precisava viver para ela. E era isso que faria.
