A mesa estava cheia, iluminada por velas e embalada por um burburinho constante de risadas, talheres e copos tilintando. O jantar tinha se tornado quase uma tradição improvisada — um momento raro em que todos podiam ser apenas pessoas, não nomes de manchetes ou números no cronômetro.
Carlos estava animado, falando com as mãos, como sempre.
— Vocês lembram da festa em Mônaco no ano passado? Aquela que era "só um jantar entre amigos" e terminou com o Pierre tentando fazer DJ com o celular?
— Tentando é gentil da sua parte — disse Lando, soltando uma risada. — Ele colocou uma playlist com sete versões de "Despacito" em sequência.
— Sete, Lando? — Carmem riu. — Eram nove! E uma delas era um remix com violino. Nunca vou esquecer.
— Foi poético — comentou Charles com um sorriso contido, mexendo distraidamente na borda do copo. — Nunca vi alguém ser expulso da própria varanda pelo síndico.
— Aquele síndico me odeia até hoje — disse Carlos. — E olha que nem era meu prédio.
Marjorie, sentada entre Lando e Max, riu com gosto.
— É por isso que toda vez que sugerem "algo tranquilo em casa", eu finjo que tenho um compromisso. Já aprendi.
— Tranquilo nunca é tranquilo — murmurou George, sorrindo ao ver Carmem assentir ao seu lado.
— Exato — completou Carmem, lançando um olhar cúmplice — A última vez que aceitei ir em um "jantar de boas" organizado por vocês, terminei dançando no meio da sala com o capacete do Lando na cabeça.
— Era temático! — se defendeu Lando, rindo. — O tema era "caos organizado".
Max, que até então estava mais quieto, entrou na conversa:
— E aquele karaokê improvisado no México? Alguém lembra da performance do Charles?
Todos viraram para ele com um ar debochado.
— Ninguém esquece aquilo — disse Marjorie, rindo. — "Bohemian Rhapsody" em francês foi uma experiência transcendental.
— Eu estava tentando ser criativo! — protestou Charles, entre risos. — E francês é minha língua nativa, achei que teria mais chances.
— Criativo demais — provocou Marjorie. — Eu ainda acordo às vezes com o "mamaaaa" ecoando na cabeça.
Ele riu, sacudindo a cabeça. — Vocês não reconhecem talento quando veem.
Mais ao fundo, numa mesa próxima, algumas vozes conhecidas chamaram a atenção de Marjorie. Ela reconheceu Enrico entre um grupo de engenheiros e assessores de outra equipe. Ele não olhou na direção deles — e ela também não fez esforço para manter o olhar. A mesa dela era barulhenta, leve e segura. E ela queria ficar ali.
A conversa seguiu, alternando entre lembranças embaraçosas e planos exagerados para a próxima possível festa. Carlos prometia organizar algo "com classe" no Canadá. Max já apostava que isso significava exatamente o contrário.
— Vamos acabar com Sainz dançando flamenco na sacada de novo — previu Lando.
— Flamenco é arte — retrucou Carlos, erguendo a taça com orgulho.
Marjorie sorria enquanto ouvia tudo. Era fácil se sentir bem ali. Sentia-se parte de algo que ia além das funções, além dos cargos e crachás. Era amizade pura.
Charles falou algo em voz baixa para George, que riu e respondeu com um empurrão leve no ombro do monegasco. Quando Marjorie olhou, Charles também olhou — quase como se soubesse. O olhar durou só o necessário para aquecer alguma coisa por dentro antes de ser cortado pelo garçom perguntando sobre a sobremesa.
