Capítulo 41

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Tonhão — bônus

Era pra ser só mais uma reunião.
Pactos, cargas, números, acordos — nada que eu já não tivesse repetido centenas de vezes em décadas de comando.

Eu estava sentado um pouco afastado da mesa principal, como sempre. Prefiro observar antes de agir. O salão estava cheio de chefes de comunidades, intermediários, olheiros com celulares na mão, os de sempre tentando parecer maiores do que realmente são. O bar do lado de fora da sala tocava música baixa, copos tilintavam, mas no fundo o ambiente inteiro era um circo bem armado.

Vi quando a porta abriu e primeiro veio o Cobra, o jeito de malandro que sabe que tem os olhos de todos virados pra ele. O moleque cresceu na rua, mas o comando fez dele um homem.

Foi então que ela veio logo atrás dele.

O vestido preto grudava no corpo, simples, mas elegante de um jeito que não se vê muito nesse meio. As sandálias marcavam o ritmo firme dos passos, e os cabelos escuros deixavam o rosto ainda mais impressionante — um rosto forte, de traços decididos, e olhos tão azuis que pareciam o mar.

Azuis.

De um tom tão específico que minha memória bateu de frente com o passado e cambaleou. Eu conhecia aquele rosto. Conhecia como quem reconhece o som da própria voz.

Meu peito apertou de um jeito que não acontecia fazia anos. Senti como se o tempo tivesse se enrolado e me arrastado de volta para aquela boate, onde eu era só um garoto perigoso demais, iludido com o crime, dinheiro fácil e fissurado por uma mulher que sabia como mexer com a minha cabeça.

"Não pode ser", pensei. "É impossível."

Mas ela andava... e cada gesto, cada olhar altivo, cada mínimo movimento trazia de volta a imagem da mãe dela.
Marta. A puta que trocou minha liberdade por dinheiro.

Cobra segurava a mão dela, como se estivesse mostrando ao mundo que era "dele", mas quem prestasse atenção via outra coisa: ela não estava ali como acompanhante.
Sentou-se na ponta da mesa e ficou em silêncio, observando os chefes discutirem, brigarem, negociarem. E quando finalmente abriu a boca...

— Isso aqui é uma zona.

A voz cortou o salão como navalha. Clara, firme, sem tremor.
Todo mundo virou pra olhar. Eu que não havia desviado o olhar nem por um segundo, só fiquei mais hipnotizado.

Olhei o Cobra. Ele suava. Não pela reunião — por ela. Ele estava dividido entre orgulho e pavor, e eu entendi perfeitamente. Porque ver uma mulher como Helena é ver um furacão com nome próprio.

O Perigo começou a rir, e o clima virou. Ela se apresentou com a frase que me gelou por dentro:

— Bom, fui eu quem encheu o bolso de vocês nos últimos meses. Muito prazer!

A sala explodiu em risadas, comentários, gente impressionada com a ousadia da garota.
Mas eu... eu não consegui rir.
Eu só fiquei olhando. Meu coração saltava dentro do peito.

Passei anos procurando por respostas. Depois que Marta desapareceu logo após me entregar pra um policialzinho de merda, tudo que encontrei foram becos sem saída. Descobri tarde demais que ela estava grávida. Quando tentei achar, era como correr atrás de fumaça.

E agora... ela estava ali. Sentada na minha frente. Com os olhos que eu jamais poderia ignorar, pois eram iguais ao da minha mãe e os meus. O rosto lembrava muito a desgraçada da Marta, mas tinha traços únicos só dela.

Mesmo se eu quisesse, jamais conseguiria esquecer esse rosto.

Eu não participei do resto da reunião. Fingi ouvir os números, assenti quando precisavam de minha aprovação, mas minha mente não estava lá. Eu só conseguia observar Helena. Cada palavra dela, cada troca de olhar com Cobra, cada mínima reação.

Ela tinha presença.
Não era uma menina qualquer perdida no tráfico. Era uma mulher que construía respeito com inteligência e coragem — e aquilo, paradoxalmente, me enchia de orgulho e me matava de culpa ao mesmo tempo.

Quando a reunião terminou e todos começaram a descer pro bar, eu fiquei sentado mais um pouco. Assistindo ela sair ao lado do Cobra, com o povo abrindo caminho.

Como o destino teve a audácia de me colocar frente a frente com ela assim, de surpresa?

Naquela noite, quando voltei pro Vidigal, a cidade parecia diferente.
As luzes, os becos, os muros... tudo tinha outro peso, outro ar.

Eu sabia que precisava descobrir a verdade.
Eu precisava saber sem sombra de dúvida se aquela mulher era mesmo quem eu achava que era.
E se fosse...
O que diabos eu ia fazer com todos esses anos perdidos? O que eu iria falar pra ela?

Deitei na cama, mas não preguei o olho.
Os olhos dela — aquele azul impossível — ficaram comigo a noite inteira.
E pela primeira vez em muitos anos, Tonhão do Vidigal, se sentiu pequeno diante de uma verdade maior que ele.

Mente CriminosaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora